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9 de setembro de 2014

Contos Mínimos # 1 a 10

luz1.

No princípio era o verbo. Depois vieram o sujeito e o predicado e, em seguida, a turma toda: os objetos, os adjuntos, os predicativos, os complementos verbais e nominais. E Deus ficou muito contente: nascia a primeira oração.

2.

Como não havia mais ninguém para lhe dar corda, a bailarina interrompeu sua sina de tonta e envelheceu coberta de pó, imóvel numa pirueta altiva, entre brincos de vidro e pulseiras de metal barato.

3.

Não conseguiu se conter: tinha que tocar, beijar, acariciar esse corpo que se oferecia a ele assim, sem qualquer resistência. Faria a autópsia depois, com calma.

4.

Não julguem sem saber a história toda. Ela era mãe e não se esqueceu disso: antes de dar o tiro, deu a bênção.

5.

Durante boa parte da vida manteve seus sonhos em cativeiro. Denunciado, não hesitou: matou-os todos. Dele, sonho algum jamais virou realidade.

6.

Ela gostava de assistir à novela das seis; ele, à das nove. No intervalo entre as duas atrações cultivavam o silêncio. Capítulo a capítulo, foram infelizes para sempre.

7.

Deve ser amor. Só pode ser. Tem cabimento achar lindo aspirar gás carbônico em 350 quilômetros de congestionamento?

8.

Morreu de tristeza. Não sem antes provar veneno, considerar um penhasco, calcular um atropelamento e medir a altura do teto.

9.

À noite, o pai entrava com cuidado no quarto da caçula. Ao sair, trazia consigo mais uma inocência destruída.

10.

Aposentado, Agenor passa as tardes jogando dominó com os amigos. À noite liga o computador e se transforma num garanhão virtual. Adota sempre o mesmo nickname: “Seu Vagem”.




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