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Arquivos Mensais: abril 2020 [f2020qui, 30 abr 2020 09:09:52 -030004am302020 30America/Sao_Paulo 30am30am 30202052 amqui, 30 abr 2020 09:09:52 -0300q00000009000202052 04America/Sao_Paulo452am0952]

Listas

Quase todos os meus amigos de infância morreram.   Celeste não morreu, mas teve um filho que só viveu três meses, e isso de alguma maneira a matou.   O vizinho da rua de cima, Tião, de média idade, em cuja cabeça desabou um caramanchão florido, esse sim, morreu.   A menina mais famosa da […]

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À mesa os iguais

A mesa está posta, os comensais se reúnem, consultam o relógio, pacientes, impacientes. Estão com fome.   A senhora da casa observa o arranjo, baixelas sem manjar, brancas porcelanas intocadas, copos vazios, talheres polidos, o linho ainda imaculado da toalha, os comensais ao redor, pacientes, impacientes,   e pede que encham os copos, fino vinho […]

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Embocadura

Ontem à noite dei de lembrar. Lembrei-me de uma canção e dei de cantar. Era uma canção antiga, canção de ninar dos meus tempos de menino.   Quando terminei, doeu-me a mandíbula, porque tive que mexer a boca de uma forma nova para emitir aquelas palavras. Eram velhas as palavras da canção, palavras que não […]

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A mulher misteriosa

Marilda era uma mulher indecifrável, diziam uns. Enigmática, outros. Voluntariosa e infernal, grande parte. Fascinante, a maioria. Adjetivos, todos apropriados, para a mulher com quem eu traía a minha e que gostava de se fazer misteriosa. Dissimulava sempre, inclusive na minha presença, o homem com quem ela traía seu marido. Poucas vezes olhava nos olhos, […]

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Oração ao sal

Sal marinho redentor, se é verdade que tudo purificas e tens o poder de fechar feridas e acalmar as dores,   faz com que a maré altíssima represada nos meus olhos lave o mal inteiro desta vida nossa, regue o meu país e o transforme num lugar decente e bom.   Extirpa desta terra toda […]

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O mal-entendido

— Mas o que é isso, Noé? Enlouqueceu? — É a arca que me pediu, Senhor. Acabei de construir. Não ficou maravilhosa? — Uma arca? Eu lhe disse que cavasse um poço, Noé, um poço! Estou prestes a mandar um período de seca sem precedentes no mundo e você faz uma arca? Vai navegar onde, […]

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Casa onde menino cresceu

Casa onde menino cresceu as flores não cresciam. Um anjo de mãos negras regava os vasos com ácido amoníaco e outros produtos de limpeza. As flores choravam em silêncio e morriam.   Pai não gostava de flores nem de cores nem de quando explodia o escândalo da primavera — o preto e o branco bastavam […]

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Enquanto viverem

Guarda-chuvas inertes fechados nos assentos dos ônibus que passam perto dos hospitais.   Os familiares descem e os abrem, protegendo-se da chuva.   Caminham na direção de uma ferida, uma chaga, uma úlcera, da qual se lembrarão enquanto viverem.  

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A outra teta da Pietá

Uma teta é uma teta. Uma coisa é a teta que amamenta, outra, a teta ao sol. A teta que amamenta pode estar ao ar livre, a que goza o calor, não. Assim dizem.   A menina de dezesseis anos não sabe disso. Alimenta o filho e se bronzeia, a grama do parque lembra a […]

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Escolher

Agora sei que havia um rio. Lembro-me do gelado da água, da escuridão e do abandono. Certamente havia um rio.   Levanto os olhos e encontro minha cara no espelho líquido, vejo a face que nem sempre reconheço: os tempos eram outros, foram outros, são outros, serão outros.   Há um medo aqui, um tanto […]

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Diálogos impertinentes (ou nem tanto)

1. — Eu quero dinheiro, joias, viagens, cartões de crédito sem limite — disse a mulher. — Mais alguma coisa, querida? — respondeu o marido. — Posso pedir algo mais? — Pode pedir o que quiser, meu amor. Não vou te dar nada mesmo.   2. — Herege! Herege! — gritou o homem ao desafeto […]

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Historietas da quarentena

TANTO FAZ — Boa tarde. Vim visitar o Gregor. — O Gregor? Quem é você? — Meu nome é Birgit. Birgit Vorsten, a noiva do Gregor. Posso vê-lo, por favor? — Sinto muito, mas não pode vê-lo. — Mas onde está ele? Ficamos de nos ver no Hotel Axa, e ele não apareceu. Fiquei aflita. […]

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Os olhos da casa

À noite, as paredes da casa conversam. Trocam impressões, cochicham. Entre murmúrios de madeira, vime, alvenaria, portas, janelas e móveis compartilham histórias, comentam sobre os acontecimentos do dia e sobre as gentes que por lá passaram.   Quando amanhece, a casa se cala e observa.  

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O fim do mundo

Aqui em casa todos se apressaram quando a tia Gorete alardeou pelo whatsapp o novo fim do mundo. “O comunismo está chegando como uma boiada desembestada, vamos pedir misericórdia, em nome de Jesus!”, ela escreveu. Foi uma correria. Mamãe, antes de sair de casa, avisou ao papai que já não gostava mais dele, que ia […]

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Na ponta dos dedos

Quando a luz voltou, percebemos como era numerosa a nossa família. Descobrimos, boquiabertos, que as gêmeas eram na verdade gêmeos — e estavam tão bonitos, tão crescidos! — e que tia Janete tinha se casado com o entregador de leite, uma rapaz muito simpático e falante que havia três anos morava num canto do porão. […]

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Voltaremos

Voltaremos a sentir frio e calor. Voltaremos a nos sentar à mesa para tomar a sopa. Voltaremos a sentir saudade, um pouco de alegria, outro tanto de tristeza. Voltaremos a cantar fora do tom, a desafinar. Voltaremos a nos incomodar, a causar prejuízos, a pedir desculpas. Voltaremos a julgar, a maldizer, a sentir inveja. Voltaremos […]

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Rastro

“Às vezes uma pétala pode ser uma esperança”, a mulher declama na praça, oferecendo as flores que traz na cesta de palha. “Flor, flores, pétalas, cheiros, perfumes, tudo vale, tudo tem serventia”, diz, o braço estendido ao transeunte apressado. Ela vive na rua, quase ninguém a vê. Em outro tempo pode ter sido professora, sempre […]

13 de abril de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos flores, histórias, nome, rastro, registro

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Na lona

Ontem de madrugada vi meu país ser atropelado e ficar estendido no asfalto sob as rodas de um Scania-Vabis.   Vi meu país na lona.   Vi-o jogado num caixa eletrônico, bêbado de frio, perguntando por que agora todos usavam máscara. Vi-o sentado sobre os escombros de um hospital, tentando não ouvir os latidos de […]

10 de abril de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia começo, futuro, lona, pais

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A qualquer momento

“Sinta em meu lugar” — ouço tua voz ao telefone —, “hoje fui embora de mim e não estou preparado para sentir as emoções que, intuo, chegarão a qualquer momento.”  

9 de abril de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia emoções, momento

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Doze sinhaninhas para bordar uma quarentena

1. O barco afunda. Fiquemos calmos. Amanhã escolheremos a maneira de nos afogar.   2. Era uma aposta à margem do dinheiro: era poesia.   3. O melhor é andar, andar. Costuma ser longa a digestão de uma mágoa.   4. Se o sonho não te trouxer insônia, melhor não sonhar.   5. Não é […]

8 de abril de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia quarentena, sinhaninha

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Minha noite com Kim Novak

Eu esperava a ligação, mas o som do telefone no bar vazio me surpreendeu mesmo assim. Artur, o garçom, atendeu e olhou para mim. Ouvi quando ele disse Ele está, um momento, vou chamar. Trouxe o aparelho até a mesa onde eu bebia a décima xícara de café. É para o senhor. Peguei o telefone […]

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Antes de dormir

Enquanto a esposa tirava a maquiagem para dormir, ele, de cueca na cama, pegou a caneta Bic e verificou seu caderninho de notas. Cultura, feito!, Justiça, feito!, Direitos Humanos, feito!, Economia, feito!, Meio ambiente, feito!, Paz do povo, feito! Parou um pouco e sorriu: os próximos itens da lista de Coisas a Destruir eram o […]

7 de abril de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos caneta Bic, dormir, sono

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Aleluias

Houve um dia uma prisão em que funcionava a escola. Lembro-me da algazarra na hora do recreio: corríamos escada abaixo, buscando, para além das portas de ferro, como aleluias em noite preta, a anistia da luz.   Na hora de voltar, lamentávamos pelo vento, que ficava encarcerado entre os muros do pátio, proibido de soprar. […]

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Uma maçã

Olho a maçã na fruteira. Amanhã estava podre, prenhe de vermes; desviei os olhos.   Depois de amanhã voltei a olhá-la, a casca já não tinha brilho. Mas a fruta permanecia lá, no mesmo sítio, porque nesta casa nada se move sem minha mão. Nada.   Ontem vou comprar uma maçã, que devia comer amanhã, […]

5 de abril de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia fruta, fruteira, maçã, vermes

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O prêmio

Há uma alegria desmesurada no décimo andar daquele edifício: lá todos celebram o fato de estarem livres da grave doença que infectou o mundo todo — mas não eles! Eles estão fora do caminho da peste. Felizes, formam uma grande fila e, aplaudindo e cantando com os pulmões abertos, correm, um a um, para agarrar […]

4 de abril de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia doença, janela, prêmio

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Vincent

Vincent já tem o seu jardim no país do Não-Me-Lembro.   Tem sua alameda, seu próprio chafariz, o roseiral, o ipê roxo, os girassóis, todos os girassóis do mundo, o banco de pedra onde se esconde para escrever poemas.   Vincent pode, por fim, gritar para a Morte: “Diz-me, oh, Morte, onde está a tua […]

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