Close

Arquivos Mensais: maio 2020 [f2020sáb, 23 Maio 2020 15:41:43 -030005pm312020 23America/Sao_Paulo 23pm31pm 23202043 pmsáb, 23 Maio 2020 15:41:43 -0300q00000041000202043 05America/Sao_Paulo543pm4143]

A Rosa e a Palavra

Às vezes, quando a vida se torna bruta e a delicadeza desaparece, alguém pede por uma Rosa e ela surge, plena de cor e fogo e alma no meio do céu. Em cada uma das pétalas há um coração pulsando, em cada pulso, um consolo. É quando a Rosa se torna Palavra e a Palavra […]

Ler Mais

Parafusos

Pelo que ouço por aí, está tudo tão bonito que devo estar cego. Falta-me um parafuso, será? É possível. Reflito: muitas pessoas que conheço não são como eu, eu tampouco sou como elas. Tenho defeitos imperdoáveis: não minto nem falseio. (É, parece mesmo que me falta algo). Pois que fique estabelecido assim: não quero me […]

Ler Mais

Marionetes

Dulcina, a marionete de olhos tristes, cansou-se de só se movimentar pela vontade do titereiro. Quis ser independente, livrar-se de uma vez daqueles dedos grossos e gordurosos. Deu adeus e foi-se embora. Montou seu próprio teatro. Mandou fazer cortinas. Contratou músicos. Escreveu peças. Chamou os amigos e as amigas, marionetes iguais a ela, para que […]

Ler Mais

Toda dor tem que ter alívio

Que a solidão venha e se acomode, mas não se refestele — refestelar-se é para gente vulgar — e me instrua: um tiro ou uma palavra para matar o que parece ser uma nuvem grossa e opressora ou só um sonho perverso. Aperto o gatilho ou escrevo e mato, porque é uma questão de escolha […]

Ler Mais

O futuro é perto

Enquanto o CD não inicia as canções, olhamos os dois pela janela. Essa fumaça que vemos não é de seu último cigarro: é o meu cérebro, que faz um movimento para trás e revê tudo. Este país é o país do futuro, alguém disse há muito, muito tempo. A janela traz aos olhos a garoa […]

Ler Mais

Casa aberta

Deixe-as abertas, dizia minha mãe, sempre abertas. Não vai acontecer nada. Não há nada que roubar. Abertas para presentear a todos nossa alegria a mancheias. Fartura. As garrafas de afeto nunca vazias, prontas para o oferecimento e o consumo. Os copos ali na mesa, que se sirvam todos sem modéstia. Pleno o coração de bondade […]

Ler Mais

A procissão da negra santa

Mas como pode ser essa Nossa Senhora tão pequena, tão negra, tão africana, parecendo que não foi acabada direito?   Marinês vê a serpente da procissão, o andor da santa bamboleia nos ombros dos quatro coroinhas pouco mais que meninos, aquela santa tão pretinha, chamando para o Salve Rainha, poderia ser a mãe de um […]

Ler Mais

Humano

Este silêncio de agora é digno de uma catedral. Uma catedral de sonhos e de tempos passados, de adeuses e solidão. Uma catedral de infinitos poemas e terríveis enganos. Dessa catedral invisível eu sou o bispo e o beato, o que faz a faxina, o que pega o dinheiro, sou o crucificado e a Pietá, […]

Ler Mais

Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar? (*)

ASAS Para alguém nascer com asas, o forjador precisa manejar muito bem a lâmina, cortar a carne rente e arremessar o corpo no espaço, com a certeza de que quem concede o voo não é o céu, a altura — é a caída, o abismo.   VERMELHO Na cidade vazia tudo é branco. Branco sobre […]

Ler Mais

A memória é um jogo que chega ao fim

O nome do autor é o primeiro que se esfuma, seguido docemente pelo título, a trama, o desfecho impactante e, afinal, o livro inteiro.   O livro inteiro se converte, de golpe, naquele que nunca foi lido, naquele do qual nunca se ouviu falar, como se, uma a uma, as lembranças da leitura, tão acalentadas […]

Ler Mais

Por quem os sinos dobram?

Outra noite em que os sinos dobraram pelo que não se disse. O silêncio é um carrilhão gelado.   As palavras nunca são só palavras: importam porque definem o contorno do que podemos ver. Elas verbalizam, com seus limites, o mundo que o nosso olhar edifica. Dói não poder dizer tanto quanto o que não […]

Ler Mais

O violinista

Que contabilizem os mortos, e façam o trabalho direito. Um a um, conta certa, erro zero, que não falte nenhum.   Assegurem-se de que estão bem mortos e enterrados, cada qual em sua vala particular, identificados, que não sejam confundidos ou trocados.   Necessário é vigiar esse violinista morto que jaz perto do jovem Werther […]

Ler Mais

Endividado

Devo a muita gente, estou endividado, não tenho como pagar. Cobradores vêm à minha casa, verificam meus pertences, carregam coisas que julgam ter valor para quitar minha dívida. Agora meu espaço está vazio. O último cobrador veio hoje e me levou, a mim, que era o único que eu tinha. Agora já não tenho mais […]

Ler Mais