Close

26 de abril de 2016

À margem duma estrada

lágrimas2Sentada no chão na beira duma estrada, uma mulher chora. Não a incomodam a poeira sobre os pés e o vestido nem o vento que lhe desalinha os cabelos. Olha para longe, para onde a estrada não termina. Seca as lágrimas com as costas das mãos, inutilmente: seus olhos não param de verter água. Não é um pranto convulso, incontrolável, nem se trata de um choro de raiva. Ela apenas chora.

Com passo tranquilo um homem se aproxima e se senta ao lado dela. Não a olha, não diz nada e começa a chorar. Seu choro tem a mesma cadência e intensidade do dela, igual ritmo, idêntico tom. Seus olhos também estão fixos na estrada que não tem fim. Os dois choram em uníssono, como se tivessem ensaiado para uma apresentação. Muitas outras pessoas anônimas se aproximam e fazem o mesmo: sentam-se um após o outro e, fitando a estrada interminável, choram.

A fila é grande, e não se vê o final. As pessoas chegam, sentam-se em silêncio e começam a chorar. Têm os olhos vermelhos e a mirada perdida. A estrada, alheia ao que se passa, estende-se calada como um cordão se desenrolando até onde a vista não pode alcançar.

Não há dissonâncias ou desacordos, apenas o choro de pessoas à beira duma estrada, como se elas fizessem isso em cada dia da vida e como se o destino lhes tivesse reservado essa tarefa. A todos e a cada um, sem distinção.

Uma após a outra as pessoas se levantam, tal como chegaram, em silêncio, e enxugam os olhos cansados de tanto chorar. Retornam à casa, aos seus, à vida. Deixam a estrada para trás. Um dia voltarão a ela e lá se sentarão novamente, sem outro objetivo que não o de chorar, chorar, chorar. A estrada, imperturbável e silenciosa, não negará abrigo aos que se sentarem à margem dela.

 




Tags:, , , , ,
              
            
  1.     
                        
              
            
                

Deixe um comentário