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27 de abril de 2016

Pelo amor de Deus!

beatas2Quando a seca crava seu punhal impiedoso no coração do povoado, quando as crianças choram porque sabem que só assim terão algum líquido na boca, quando vemos o nosso gado gritando por um pouco de água, as beatas chutam a poeira e dizem que somos gente de pouca fé. Sentimos o tempo todo o seu olhar de harpia em nossa nuca, acusando-nos de uma culpa que só a natureza possui. Enquanto trabalhamos e em meio ao suor que nos empapa o rosto e os olhos, vemos o dedo delas em nossa direção, as unhas em riste. Nossa resposta é apontar o céu, que a todos cega com tanta luz. Em tempos assim, costumamos retirar da igreja a imagem do Santo Padroeiro e com ela circular em procissão pela cidade, pedindo por um pouco de chuva para aliviar as veias secas da terra.

Andamos com o Santo nos ombros, e cantamos em seu louvor, e olhamos com súplica para seus olhos, pois sabemos que nosso pedido é justo. No fim da caminhada depositamos a imagem no coreto da praça e ali rezamos durante horas intermináveis. Se não chover até o meio-dia, arrancamos um braço da imagem. Sem uma só gota de chuva até o meio da tarde? Decepamos o outro. E extraímos uma perna, e a outra, e a cabeça, e os ombros. Assim fazemos até a noite chegar, quando olhamos com desalento para o céu coalhado das mais belas estrelas que existem e sem uma só nuvem à vista. Então regressamos à igreja em silêncio, carregando o Santo amputado. Lá recolocamos os membros no lugar original da imagem e a deixamos no altar, como antes.

Esse ritual raras vezes funciona, mas nós sabemos que é a única maneira de juntar o ódio ancestral que sentimos pelas beatas da cidade com o desejo desesperado pela chuva salvadora. Que chova pelo menos um pouco, pelo amor de Deus!

 




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27 de abril de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos água, beata, chuva, , poeira

              
            
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