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30 de março de 2017

O outro rosto, a mesma face

Depois da nossa última discussão, decidi pôr um ponto final em nossa crise conjugal. No começo não soube o que fazer com o corpo e, depois de três dias vendo-a inerte sobre o sofá, resolvi enterrá-la debaixo do piso da cozinha. Algumas horas depois disso, como resultado de uma metamorfose repentina, comecei a imitar a voz de minha esposa. Puxei os erres guturais como ela em “porta”, “carteira” e “morte”. Estudei com afinco seu recado na secretária eletrônica e agora já não há diferença alguma entre a voz dela e a minha. Também assisti a nossos vídeos para apreender-lhe os trejeitos, a maneira de virar a cabeça, o modo de mexer as mãos, o gesto coquete de mordiscar o lábio inferior como os moleques travessos. E o penteado, os vestidos, os sapatos — copiei tudo e a tudo me acostumei.

Passaram-se dez anos desde o meu desaparecimento e agora a polícia suspeita que minha esposa me matou. O advogado que cuida do caso está confuso e eu procuro tranquilizá-lo dizendo que tudo vai se esclarecer no final. Meu único receio é que revistem a casa.

Querida, vejo seu rosto quando me olho no espelho, e me lembro de que você nunca foi rancorosa. Agora, por favor, saia de mim e me devolva minha aparência e minha face. Fique agradecida porque, afinal de contas, eu a trouxe de volta à vida, mesmo que por um tempo determinado. E esse tempo já se acabou. Parta.

 




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30 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos corpo, espelho, face, morte, rosto

               
              
            
                

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