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7 de novembro de 2017

Contos Mínimos # 821 a 830

821.

Yerma respira de maneira compassada. Não abre os olhos. Ainda está dentro dela, e suas entranhas ardem como um vulcão, até que seu corpo estrebucha e se rompe em mil pedaços. Ela não se importa, está feliz. “Consegui”, pensa. O menino nasceu morto, mas ela ainda não sabe.

822.

O bar está lotado. Vejo quando o sujeito entra e, em questão de segundos, tira a metralhadora de dentro do casaco e começa a disparar indiscrimi

823.

Caso um dia você se esqueça de meu nome, tente príncipe, meu rei, amoreco, mor, morzão, mozão, pituco. Também pode me chamar de folgado, falastrão, insuportável, feião, sapo, canhão. Num caso extremo, pode rir e me chamar, com ironia, de querido, tutuco, gordinho, cara de lua, belezuco. De fato, se você preferir, pode até me chamar pelo telefone, Whatsapp ou SMS. Mas nunca, nunca mais volte a me chamar de solidão.

824.

Incapaz de suportar a pressão, o Homem do Tempo, desolado, confessou ter chorado de uma só vez toda a água prevista para cair naquela primavera.

825.

A indiferença é irreversível: se você permitir que cortem uma árvore do seu bosque, poderá surgir uma ponte sobre o rio, mas a paisagem nunca mais será a mesma.

826.

Foi num desses dias, prenhes de normalidade, quando nada sinalizava a perturbação da ordem, que tudo aconteceu. No meio da sala, depois do jantar, comecei a diminuir de tamanho. Primeiro, cheguei à altura da mesa, depois à do sofá, em seguida à do banquinho onde costumava pôr os pés. Fui reduzindo, encolhendo, murchando, quase derretendo. Como era de se esperar, tudo em volta se agigantou, até o Pingo, que me mostrou os dentes, mas sossegou depois de me cheirar. Meu filho de cinco anos, que montava um quebra-cabeças no chão, olhou pra mim e começou a gargalhar: “Olha o papai, tá mais pequenininho que eu!”. Minha mulher, que fazia crochê enquanto aguardava a novela começar, tirou os óculos e me encarou: “Você está se sentindo bem?”.

827.

Decidi abandonar-me, deixar-me, fugir-me, sentir-me, sentar-me e esperar-me.

828.

Jeremias fez cara de nojo mas tomou a sopa de tartaruga. Ele não gostava de comer bichos, mas sua mãe argumentava: “Se a gente não come eles, eles acabam comendo a gente”.

829.

Porque tentou Eva e a fez cair no pecado, Deus amaldiçoou a serpente dentre todos os animais da Terra, condenando-a a morder a poeira do chão e a se arrastar sobre o próprio peito. O que dá a entender que as serpentes, no princípio, se não pernas, tinham patas.

830.

— Do que você quer o sanduíche, querido?

— De tudo o que tiver, amor.

— Só tem mortadela.

 




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7 de novembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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