Close

27 de setembro de 2018

A água desse rio vai dar no mar

Mataram o Eduardo faz um ano. Era meu único filho e faria vinte e dois anos se aqueles malditos não tivessem dado um tiro nele por causa da féria do ônibus. Tinha acabado de começar no emprego novo. Era cobrador, na linha 372. Cumpria o último turno, antes de recolher pra garagem. Entraram os dois pivetes, queriam que ele desse todo o dinheiro que tinha no caixa. O Eduardo, que era maior e mais forte, foi pra cima deles com socos e pontapés e pôs os moleques pra correr. Na noite seguinte eles voltaram. Armados. Meu filho recebeu um tiro na barriga e outro na cabeça. Morreu sentado na cadeira de cobrador. O chão do ônibus virou uma poça vermelha. A polícia não descobriu a identidade dos dois pivetes, nem eu sei quem são. Mas sei de onde eles vêm, onde moram, onde costumam se encontrar, onde promovem as festinhas e os bailes, onde fazem arruaça. Costumo sair uma vez por semana com minha moto, de madrugada, e passo pelos lugares que eles frequentam. Levo minha pistola bem grudada na cintura. Distribuo sempre três ou quatro tiros a esmo, na direção deles. Acerto pelo menos um a cada noite. Numa dessas vezes vou acertar os dois desgraçados que mataram o Eduardo. Ou numa dessas eles me acertam, vai saber.

Tem seis meses isso. Mataram ele, foi. Era filho único, o Jaderson. Tinha dezesseis anos, tava fazendo o colégio. Queria fazer faculdade. Inteligente como era, ia entrar logo de cara se não fosse aquele filho da puta que apareceu pra estragar tudo. O Jaderson trabalhava de padeiro, ia pro emprego às cinco da manhã, porque o pão tinha que estar pronto logo cedinho. Os dois pivetes chegaram nele e levaram ele pra rua ao lado, iam assaltar ele, quando chegou um motoqueiro vindo sei lá de onde e atirou na direção dos três. Sabe como é, a pivetada é malandra e tem malícia, os dois conseguiram fugir. Um dos tiros pegou bem no Jaderson, nas costas. Ele morreu ali mesmo, na rua, sem nem ter chegado ao serviço naquela madrugada. O cara da moto só disparou e sumiu, o filho da puta. Ouvi dizer que esse motoqueiro sempre aparece por aqui no bairro, dando tiro a torto e a direito, contra todo mundo. Atira e some. Ninguém sabe quem é ele, nem a polícia, nem eu sei. O que sei é que faz cinco meses que ando pelo bairro, uma vez por semana, sempre de madrugada, em silêncio e sem ninguém ver, com minha pistola bem grudada na cintura. Mato um motoqueiro por semana. Numa dessas vezes vou acertar o desgraçado que assassinou o Jaderson. Ou numa dessas algum motoqueiro me acerta, vai saber.

 




Tags:, , , , , ,
               
              
            
                

Deixe um comentário