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3 de junho de 2018

A aposta

É um cachorro de três patas e sessenta anos. Coxeia, sempre silencioso e obediente, ao lado de seu dono. Ao amigo fiel o homem deu tudo: alimento, saiu para passear duas vezes por dia, jogou bolinhas para ele exercitar os músculos e chamou o veterinário sempre que preciso. Esteve com ele quando completou trinta anos e foi destaque no Guinness Book; quando cumpriu quarenta e se transformou no cão mais famoso da televisão; aos cinquenta, quando os cientistas o isolaram numa clínica para descobrir o segredo de sua longevidade; e não o abandonou agora, aos sessenta, quando deixou de ser notícia, por enfado do público, que queria novidade. Mas teve aquele dia, aquele maldito dia… A cada vez que alguém pergunta sobre a perda da quarta pata, o homem inventa uma história diferente para esconder sua vergonha, sempre com o olhar insistente do animal de três patas cravado nele.

No leito de morte, com esforço fez um sinal para que o bicho se aproximasse:

— Por favor, me perdoe, Duke, eu nunca deveria ter feito aquela aposta, eu sinto tanto! Me perdoe — disse, antes do último suspiro.

Os dois fecharam os olhos e, por fim, descansaram em paz.

 




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3 de junho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos aposta, cachorro, cão, dono, patas

               
              
            
                

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