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13 de maio de 2016

A atriz

atrizVi-a hoje de novo, do mesmo jeito que das outras vezes: bêbada. Estava sentada num dos bancos da praça, sozinha, no mesmo canto em que perambulam os vagabundos, os drogados de crack, os mendigos e os bêbados como ela. Fumava um cigarro torto, quase apagado, quase no fim, tragando a fumaça como quem, em agonia, busca o ar para recompor as forças que um dia teve, ou o ânimo que há muito abandonara seu corpo. Ela não percebeu minha presença ali, observando-a de longe. Levantou-se, jogou a guimba no chão e foi, pedestre anônima, a um lugar qualquer da cidade. Ainda que não a conheça pessoalmente, nem tenha nunca trocado uma palavra com ela, costumo sempre encontrá-la por aí, com a bolsa de couro velho pendurada num dos ombros. Se não a vejo quando saio de casa pela manhã, olho em volta, procurando-a. Sinto sua falta, como se sente falta de um vício adquirido e depois deixado de lado.

Contam que era atriz e agora está louca. Ninguém sabe dizer qual foi a última vez em que atuou. Deve ter feito bodas de ouro na carreira, arriscam. Falam muitas coisas dessa mulher: de como se transformava a cada papel, que sua Blanche foi a melhor que já tinham visto, que era capaz de hipnotizar audiências apenas com o olhar. A velhice a afastou dos aplausos e trouxe o esquecimento. Este, a solidão e a indiferença.

Em mais de uma ocasião flagrei-a andando perto dos trilhos do trem, à procura de um lugar isolado para beber em paz, como agora. A cerveja deve estar quente, mas ela parece não se importar com isso. Aperta com uma das mãos a bolsa de couro, como a proteger alguma preciosidade. Não olha para ninguém, nada desperta sua atenção. Vive de costas para o mundo. É a vagabunda da praça, uma mulher de meia-idade que mais parece uma velha centenária. Às vezes é só uma loira alcoólatra, outras, uma dama solitária e manca.

Coxeia a perna direita, embora mantenha as costas eretas ao caminhar. Vê-la se deslocar contra a luz do sol poente, capengando enquanto equilibra a garrafa e a bolsa, é espetáculo de grotesca beleza. Quando para e olha para lugar nenhum, é como se o mundo suspendesse a rotação, esperando pelo próximo movimento dela para retomar o giro.

A altiva figura, em tudo melancólica, ainda conserva a aura de mistério e dela pode-se dizer: ali vai alguém que um dia foi grande. Para mim, que a observo calado, será sempre uma dama solitária.

 




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  1. Muito bom o texto de Baggio, não deixem de ler e mesmo de reler. Ele coloca com cuidado as palavras, mantendo uma objetividade que, sem forçar a mão, cria o “clima” exato. Destaco: “Vive de costas para o mundo. Uma mulher de meia-idade que mais parece uma velha centenária. Às vezes é só uma loira alcoólatra, outras, uma dama solitária e manca”. Baggio é mestre.

    • Luiz Carlos, obrigado pelo comentário. Gostei muito de seu olhar especial sobre meu texto. Realmente, eu tomo cuidado com as palavras, às vezes fico horas buscando uma, a mais adequada, a mais correta. Você é bom observador. Grande abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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