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21 de dezembro de 2015

A cabeça, que não se perca

cabeçaHá dias perdi minha cabeça. Não sei quando nem como nem onde. Simplesmente a perdi. Agora ando por aí, descabeçado, e, mesmo que não tenha ouvidos, sei, pela ressonância em minha caixa torácica, do grito de terror das pessoas que me veem – um grito forte como um estouro de manada, que faz meu peito estremecer. Embora não as veja, sei que escondem o rosto com medo e fogem de mim.

Onde será que a perdi? Talvez nalgum beco escuro, nalgum rio que corte a cidade, nalguma sarjeta de avenida. Ela me faz enorme falta. Não consigo pensar sem ela. Passo a mão até onde termina meu pescoço e tateio o toco que sobrou. Acima disso, o vazio, o nada. Não há cabeça.

Uma vez, há algum tempo, num gesto intempestivo, minha cabeça se soltou de meu pescoço e se jogou da varanda do apartamento, cinco andares abaixo. Foi um autêntico suicídio. Desci os degraus de dois em dois, feito um alucinado, e a peguei na calçada, justo antes de o caminhão de lixo passar. As pessoas desviavam dela, viravam o rosto e não faziam caso de minha cabeça largada ali no chão. Coloquei-a de volta no lugar e subi lentamente os cinco andares, pensando que motivos teria minha cabeça para tentar se matar.

Desta vez ela sumiu e não há meio de encontrá-la. Se alguém souber de seu paradeiro, rogo que me informe e me ajude a recuperá-la. Uma pessoa não pode viver sem cabeça. Enquanto isso, à falta de coisa melhor para fazer, acalmo meu coração e meus nervos com a ideia de que você – você, amor da minha vida! – a encontrou. E que está cuidando bastante bem dela, penteando meus cabelos, limpando meus ouvidos, escovando meus dentes e aparando meu bigode, que é de grande estimação. E que, de vez em quando, cobre meus lábios com os seus.

 




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