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10 de maio de 2016

A carta

mendigoMinha querida velha, peço sua bênção.

Tenho muita saudade da senhora. Sinto falta da sua conversa e do cafezinho das três da tarde. Aqui não tenho nada disso, nem a senhora, nem o cafezinho. Mas vai tudo bem, eu tô bem, como Deus deseja e provê. Desde que cheguei encontrei trabalho e tô feliz. Me pagam um salário suficiente para viver com dignidade, como vive o senhor Altieres, o dono da fazenda onde eu trabalhava. Faço três refeições por dia. A roupa que fiquei de lhe mandar de presente ainda não comprei, pois quero escolher com cuidado, na melhor loja que existe aqui. Fale pra Teca que quando for aí eu levo um brinquedo para o nenê que ela teve no mês passado.

Vou tirar um retrato meu para lhe mandar. Só preciso esperar que faça um dia de sol, assim eu apareço mais bonito na fotografia. Aqui a chuva não para, faz dias que só chove. Hoje, por um exemplo, está chovendo de novo.

 Na semana passada vi o Cido, filho da comadre Idalina, andando na rua. Ele não me viu. Acho que tá trabalhando, mas, pela aparência dele, ganha menos que eu.

Tenho muitos amigos aqui.

Moro numa casa simplezinha, mas muito arrumadinha. O nome da rua é complicado, ainda não sei de cor o endereço da minha casa, por isso não lhe mando essa informação. Assim que decorar o nome da rua onde moro, eu digo, pra senhora me mandar uma cartinha contando as novidades aí da minha terra. Seu filho que muito a ama, Aderaldo José.

Olhou o papel amarrotado e sorriu, orgulhoso por lograr escrever várias frases inteiras. Dobrou e guardou com cuidado a carta no bolso da camisa e se dirigiu à agência de Correios mais próxima. Lá, enterrou o chapéu na cabeça e se sentou num dos degraus da escadaria que dava acesso à entrada principal. Observou o entra e sai das pessoas. Esticou o braço direito, com a palma da mão voltada para cima.

Quando juntou os cinco reais necessários, comprou o envelope e o selo e despachou a carta. Depois foi perambular pelas ruas, debaixo do sol, à cata do que fazer. Ainda era cedo para entrar na fila da sopa.

 




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  1. Olá!
    Seu texto mexe com a nossa imaginação. Uma leitura que parece óbvia mas, nos instiga a terminar na leitura. Muito bom.
    Prazer em conhecê-lo.

  2.     
                        
              
            
                

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