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12 de julho de 2015

A casa de choro

lágrimasPercival abriu uma casa de choro. Para que as pessoas pudessem chorar. Ele sonhou com isso numa noite de dezembro em que estava irremediavelmente só e miserável e, como nunca tinha sonhado antes, viu que esse sonho era um prenúncio. Decidiu investir no negócio das lágrimas.

Na casa de choro do Percival havia uma sala para cada tipo de pranto. Uma, pintada de azul, era para chorar de alegria. Outra, pintada de verde, destinava-se ao pranto de tristeza. Na sala amarela se chorava por amor, na de cor cinza, por desamor. A sala pintada de vermelho abrigava os que queriam chorar a morte de um ente querido, e a de cor branca, os que vertiam lágrimas por motivos variados, desde a descoberta de uma doença incurável até a demissão do emprego. Ninguém entendeu muito bem a escolha das cores, mas Percival não se importava: tinha sonhado assim, e aprendeu que não se deve questionar os sonhos, mas obedecê-los.

Depois de algumas semanas de funcionamento, a casa de choro do Percival tornou-se um sucesso. Virou moda entre as moças, os rapazes, os homens de meia-idade e as mulheres casadas. Aos domingos, depois da missa, as senhoras comentavam na praça da matriz, perto do coreto, o quanto tinham chorado nos dias anteriores. No colégio, as meninas reunidas no recreio descreviam o pranto que tinham deixado na sala de cor cinza; os meninos, mais tímidos, apenas mencionavam que tinham dado uma passadinha pela sala amarela.

Com a clientela em franco crescimento, depois de dois meses Percival abriu uma nova sala, nos fundos da casa de choro. Essa sala especial e discreta, pintada com um tom suave de roxo, era reservada aos mais envergonhados – aquelas pessoas que, em hipótese nenhuma, manifestavam suas emoções em público. Lá, distante dos olhares de todos, sentiam-se à vontade para extravasar suas dores e chorar, chorar, chorar. Em pouco tempo a nova sala tornou-se a favorita dos caminhoneiros, dos políticos, das mulheres infelizes no casamento, dos lutadores de vale-tudo e dos policiais.

Percival estava exultante. Como ele tinha sonhado, as paredes de seu estabelecimento ficaram impregnadas das lágrimas da cidade, e ali elas permaneceram, testemunhas das dores, desilusões e infelicidades de toda a população. Assim, as pessoas, lágrimas devidamente choradas, quando saíam de lá não tinham outro remédio a não ser serem felizes.

 




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