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12 de julho de 2016

A chuva de calcinhas

maja3Se eu disser ninguém vai acreditar, mas digo do mesmo jeito: ontem um monte de calcinhas caiu em cima de mim. Eu voltava pra casa, era uma rua sem muito movimento e, de repente, a chuva de calcinhas sobre a minha cabeça. As pessoas atiram de tudo pela janela dos apartamentos, isso é sabido, mas calcinhas? Quem joga calcinhas pela janela?

Voltei a cabeça e olhei pro alto, pra fila de janelas abertas daquele prédio, mas não vi ninguém em nenhuma delas. Intrigado, com as calcinhas na mão, e decidido a saber quem tinha me brindado com aquela chuva inusitada, fui até a porta do edifício e apertei a campainha de todos os apartamentos. À pergunta Quem é? eu respondi Vim devolver umas calcinhas que alguém atirou pela janela. Ouvi com paciência todo tipo de palavrão, até que alguém de um dos apartamentos, depois de dez segundos de silêncio, abriu a porta. Entrei.

Subi pelas escadas olhando os corredores. Num deles certamente haveria uma porta aberta à minha espera, e eu estava certo: no quarto andar, a última à direita. Mal me aproximei ouvi uma voz feminina pedindo que entrasse, e foi o que fiz. Era uma sala decorada com simplicidade e bom gosto. Aqui, no quarto. Fui na direção da voz e a vi. Ela estava deitada na cama, apoiada num dos cotovelos. Completamente despida. Ali em pé, com as calcinhas na mão, eu não sabia o que dizer ou fazer. Depois de me olhar de cima a baixo com curiosidade, ela se levantou e se aproximou de mim. Pegou as calcinhas e, quase colando seu rosto no meu, disse Obrigada!

As palavras não fizeram falta daquele momento em diante. Ela escolheu uma das calcinhas e a vestiu como se a tirasse: com vagareza, puxando delicadamente até o ajuste final nos quadris. A peça seguinte foi o sutiã, dentro do qual ela acomodou o par de seios redondos e firmes e, dando as costas pra mim, pediu com os olhos que a ajudasse a fechar. Em seguida, a blusa, botão a botão, as meias de seda — intermináveis como aquelas pernas —, que fomos desenrolando juntos, ela sentada na cama, eu ajoelhado a seus pés, depois a saia, os sapatos de salto. Pouco a pouco ela se transformou, diante de meus olhos ainda incrédulos, numa escultura totalmente vestida.

Quando terminamos, saímos juntos do apartamento e do prédio. Ela foi na direção do metrô, eu segui pelo lado contrário, pensativo. Não dissemos palavra na despedida. À noite, antes de dormir, pedi à minha esposa que se vestisse bem devagar, peça por peça. Mas não foi a mesma coisa.

 




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  1. Mais um belo texto! Parabéns Mário! Esse traço algo inusitado, que você sabe manejar tão bem, confere aos seus textos qualidade especial; aliado à leveza e à concisão, os torna deliciosos de se ler.

    • Maria de Lourdes, você disse uma palavra-chave: concisão. É o que busco com meus textos, na imensa maioria das vezes. Que bom que percebeu isso. Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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