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5 de março de 2015

A chuva extraordinária

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Quem estivesse em seu juízo perfeito não ficaria dentro de casa naquela manhã. O sol, tão deslumbrante quanto escandaloso, convidava para o desfrute do dia mais luminoso de que se tinha notícia. O céu estava azul e claro como um mar sossegado. Uma festa para os olhos e todos os sentidos.

Ninguém percebeu a primeira gota de água que veio de cima, tampouco a segunda. A terceira caiu diretamente na lente esquerda dos óculos novos de dona Mirtes, que naquele instante atravessava a rua. Ela até se deteve na faixa de pedestres para olhar para cima e ver quem era o engraçadinho que tinha resolvido regar as plantas num dia como esse.

Sem que ninguém esperasse, começou a chover. As gotas se multiplicaram rapidamente e um volume generoso e surpreendente de água veio céu abaixo. Na rua, as pessoas olhavam para o alto procurando alguma nuvem que justificasse a inesperada tempestade, mas o azul continuava intacto sobre a cabeça de todos. A surpresa foi tamanha que ninguém acelerou o passo nem buscou abrigo para fugir da água que caía, nem abriu rapidamente o guarda-chuva. Ao contrário. Tão maravilhadas estavam as pessoas com esse acontecimento inusitado que pararam onde estavam e se deixaram molhar. Nas ruas, calçadas e praças todos abriam os braços para receber a água, ou viravam o rosto para cima, boca aberta e olhos fechados, para beber o líquido que a natureza oferecia. Pairando sobre tudo isso, a tonalidade mais azul que o céu era capaz de proporcionar. Um fenômeno. Quando a chuva extraordinária parou, todos lamentaram. O que é bom sempre dura pouco, disseram.

Pouco depois algumas nuvens lentamente começaram a aparecer lá no alto e as pessoas, ao vê-las, começaram a correr para debaixo das marquises para fugir daquela chuva trivial, corriqueira. Dona Mirtes voltou para casa praguejando, pra que vou me molhar com essa porcaria de chuva normal?

 

 




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