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16 de fevereiro de 2016

A chuva lá fora

chuva2Chovia muito naquela noite, mas lá dentro não havia janela, de modo que só se sabia da tempestade pelo barulho. Ele estava tranquilo, pelo menos aparentava estar. Acomodou-se como pôde na cadeira e bebeu em silêncio a taça de vinho tinto, em pequenos goles. Seus olhos vagavam pelo cômodo pequeno e se notava sua intenção de ouvir o som da chuva, e isso o apaziguava. Acariciou a taça e, por mais que gostasse, sabia que seria a última. Jamais voltaria a beber. O álcool já lhe tinha causado danos demais, tristezas demais. Perdeu a cabeça diversas vezes por causa dele, e alguém sempre sofria as consequências de sua irresponsabilidade. Isso agora acabou. Sua última taça, seu último trago. Reteve na língua o quanto pôde a gota final de vinho; engoliu-a de olhos fechados, no mesmo momento em que o som de um raio caindo nas proximidades cortou o silêncio da sala.

Sentiu-se observado, e isso lhe dava grande desconforto. De maneira alguma lhe agradava a ideia de ser visto, analisado, julgado. Não agora, não ali. Quando o moço se aproximou e retirou a taça de sua mão, pensou que o melhor seria rezar baixinho. Lembrou-se da oração aprendida na infância. Recitou os versos de forma inaudível. Um murmúrio, quase sem mexer os lábios. Foi uma forma de se manter calmo, apesar de saber que continuavam a observá-lo, e isso era exasperante, ora se era!

Fechou os punhos, tensionou os músculos e abriu a boca deixando escapar um grunhido misturado de raiva e medo. Tentou se levantar, mas não deixaram. Mãos pesadas forçaram seus ombros para baixo. Imobilizado, era assim que ele estava. Apertou os dentes e arqueou o corpo para a frente, primeiro pela frustração de não poder se levantar, depois pela descarga elétrica que, como um raio, o sacudiu uma, duas, três vezes. Seu corpo, inerte, tombou para um lado.

Aqueles que o observavam ficaram ali por uns instantes ainda, depois se levantaram e saíram silenciosamente da sala. Todos tinham trazido guarda-chuva e se prepararam para abri-lo porque lá fora ainda caía muita água do céu.

 




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  1. Caro Mário, por razões particulares, não tenho lido seus textos, porque não tenho ligado o computador!Aliás, não tenho lido quase nada.
    Por coincidência saí hoje sob uma chuva torrencial, literalmente! Graças a Deus sem descarga elétrica!!!
    Só para aliviar o texto tão pesado. Abraços!!!

    • Oi, Leman, obrigado pela visita e pelo comentário. Fez bem, tomar um pouco de chuva é revigorante. Espero que você esteja bem, superando suas dores. Grande abraço e seja muito feliz.

  2.     
                        
              
            
                

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