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7 de dezembro de 2015

A comida

comidaO silêncio que se podia cortar com uma faca tomou conta de todos em volta da mesa. O jantar transcorreu na mais absoluta quietude, mas estava claro que a qualquer momento haveria uma explosão. Cabeça baixa, ninguém tirava os olhos do próprio prato. Comiam, menos Leonardo, o filho mais novo.

O chefe da família finalmente rompeu o silêncio, virou-se para o caçula e Outra vez você se mostrou contrário às tradições de nossa família, sua própria família. Não comeu nada, de novo – procurou usar um tom de voz cordial, mesmo que as palavras saíssem repletas de ira. Sou o chefe desta casa, herdei esse privilégio de meu pai, que também herdou do seu. Durante gerações inteiras temos exercido o mando nesta comunidade e nos honramos de sempre agir com critério, com justiça.

Leonardo escutava o pai em silêncio, sem levantar a vista do prato intocado. Os demais se entreolhavam, também sem dizer palavra. Nossa família – continuou o pai – sempre teve os melhores caçadores, os pescadores mais hábeis e os homens mais valorosos de toda a redondeza. Agora o meu filho mais novo – você, Leonardo! – está rompendo uma linhagem da mais pura estirpe, está quebrando uma cadeia de honra que há gerações tenta se manter com dignidade. Ouso dizer que você me envergonha.

A mãe chorava baixinho, concordando com a cabeça. Escondia as lágrimas num lenço. O pai estava longe de terminar. Eu tenho trazido diariamente, religiosamente, as melhores moças que se podem encontrar nas proximidades. As mais jovens, as mais belas, as mais carinhosas – e isso você não pode negar, Leonardo. Mas você, filho indigno de seu pai, tem sistematicamente recusado todas elas, tornando-me motivo de chacota em toda a comunidade. Corro o risco de perder minha autoridade ante a vizinhança. Todos se riem de mim, às minhas costas, e comentam sobre a falta de hombridade em nossa família. E você fica aí, calado, sem me olhar nos olhos, sem emitir uma palavra sequer. Não tem nada para me dizer?

Leonardo, lentamente, ergueu os olhos e olhou os de seu pai. Pai, sinto muito por sujar seu nome, e o nome de seu pai, e o do pai de seu pai. Tenho procurado ser um bom filho. Aprendi a caçar e a pescar como todos de nossa família, e tenho sido obediente, mas há coisas que eu não posso fazer. Eu gosto muito das moças, mas esteja certo de que não vou comer nenhuma delas, mesmo que mamãe as prepare com batatas e cebolas e alho e muito tempero. Isso eu não faço.

Olhou ainda uma vez para os pedaços de carne à sua frente, empurrou o prato com brusquidão e levantou-se da mesa.

 




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7 de dezembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos comida, família, pai

              
            
    • Obrigado pela visita, Michele. E atmbém pelo link do filme, acabei de ver o trailer no YouTube. Não tinha ouvido falar dele. É verdade, há tanta monstruosidade e bizarrice em nossos dias, que pouca coisa nos espanta. Você captou exatamente o que eu quis dizer com o conto. Grande abraço.

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