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2 de fevereiro de 2016

A conferência

palestranteMorena, estatura mediana e os lábios com o desenho mais lindo que ele já tinha visto: a jovem que se sentou na primeira fila do auditório vestia uma saia preta, não muito justa, com meias igualmente escuras, e transparentes. A blusinha branca tinha dois botões abertos, dois, não, três, estou vendo três botões abertos. Ela cruzou as pernas num movimento discreto, aparentemente banal. Esperava o início da conferência.

O palestrante, no palco, ultimando as providências para sua apresentação, fez que não percebeu a presença dela, mas sentiu um calafrio. Pensou até que estava sentindo seu perfume, mesmo com a distância que os separava. Preciso me concentrar, isso aqui logo vai estar lotado de executivos e empresários, pensou, enquanto via as poltronas sendo ocupadas rapidamente pelo público. Fez esforço para não olhar novamente para aquelas pernas cruzadas e os três – claro que são três! – botões abertos da blusinha branca, e ater-se unicamente aos dados e argumentos de sua palestra, que seria sobre a difícil situação econômica do país.

Mas que dados e argumentos são esses? Que crise é essa? Como falar e soar agradável a uma jovem tão atraente tendo que apresentar à plateia os números que mostram o país mergulhando de cabeça no buraco mais negro de sua história recente? Nada disso! Olhou para o público, olhou para ela, e começou seu discurso com o melhor sorriso que possuía, reconhecendo que Antes de mais nada, senhores e senhoras, a esperança é algo que jamais deveríamos perder, não é mesmo? A esperança faz parte da alma brasileira, que é, sem dúvida, uma bela alma, mesmo quando falamos da b0$t@ em que se encontra a nossa economia. Há luz no fim do túnel, ah, eu sei que há! Posso enxergar com nitidez essa chama quase imperceptível de otimismo que queima o nosso peito por dentro e faz brilhar os nossos olhos, nos faz olhar para a frente e para o alto, buscando a recompensa que todos necessitamos e merecemos. Esperança, senhores e senhoras, a palavra que deve nos mover é es-pe-ran-ça!

Olhou diretamente para ela, esperando encontrar alguma reação sorridente a esse início de conferência tão exuberante. Não encontrou. Pigarreou, tossiu um pouco, bebeu um gole d’água, arrumou o nó da gravata.

E agora vamos aos números, continuou, já sentindo as gotas de suor descendo pela testa.

 




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