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21 de junho de 2016

A coreografia cotidiana

coreografia cotidianaNaquele dia, no metrô, compreendi o que acontece na realidade: ninguém mais quer dançar comigo. Lembro-me disso como se fosse hoje. Entrei no trem e, com as mãos firmemente apoiadas na barra de ferro, olhei em volta e constatei essa verdade. Três senhores muito alinhados, certamente a caminho do trabalho, folheavam o jornal do dia e pareciam alheios a tudo, inclusive a mim; duas meninas de quinze anos, barulhentas como só as meninas costumam ser nessa idade, conversavam e riam vendo qualquer coisa nesses aparelhos modernos de telefone; uma mulher com cara de enfado não tirava os olhos do chão, perdida sabe-se lá em que pensamentos; um casal de namorados ouvia música compartilhando o fone de ouvido e marcando o ritmo com os pés; uma linda senhorita não tirava os olhos do livro que tinha nas mãos e acariciava as páginas como se fossem a pele rosada de um bebê; um jovem executivo não parava de ajeitar com os dedos o nó da gravata, os olhos fixos nos trilhos que o trem ia devorando à frente — todos compenetrados na execução de sua particular e cotidiana coreografia. Um balé diário com ritmo e melodia próprios, que exige dos bailarinos rigor e harmonia.

Em cada parada algumas pessoas descem e sobem outras, numa dança de gestos rápidos, coordenados e sem tempo para improvisações ou desatenção. Tudo muito preciso e cirúrgico, e assim o trem segue viagem. Naquele dia em que constatei que estava excluído desse balé, eu observei tudo e todos à minha volta e, do alto de meus oitenta e oito anos, longe da agilidade e da destreza de outras épocas, permaneci em pé, agarrado à barra de ferro como a uma tábua de salvação num oceano de indiferença. Nessa dança não há lugar para alguém como eu. Ademais, a indiferença, ela própria uma bailarina tão grande e tão sem-cerimônia, ocupa muito espaço no palco exíguo de um vagão de trem e prescinde de parceiro para executar sua coreografia.

 




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