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11 de agosto de 2020

A cura

É à noite, quando me espanto

e o ar estanca,

que ouso pedir alguma coisa,

eu, que nunca pedi nada:

 

uma mulher cantando nas Antilhas, (*)

a voz das negras americanas dos hinos e dos blues, (*)

os acordes iniciais da Bachiana nº 5 na respiração de Maria Lúcia Godoy

bastariam para mim, para a minha calma e meu sossego,

 

eu, que tenho uma agulha enfiada no peito

dando passagem para o remédio me invadir,

segundo a segundo, gota a gota, angústia a angústia,

 

eu, que há muito tempo tenho tanta necessidade de me curar,

eu, que há muito tempo ando cansado dos remédios, das agulhas e das angústias,

mas o que me corrói por dentro não se cura em pouco tempo,

é preciso muito tempo, mais remédio, mais agulhas.

Acontece que o Tempo, esse senhor tão bonito como a cara que meu filho teria (**)

se eu tivesse um filho,

esse senhor tem seus caprichos, seus desconhecidos brios.

Esse senhor é quem ordena que eu espere.

 

É à noite, quando me espanto

e o ar estanca,

que ouso pedir alguma coisa,

eu, que nunca pedi nada:

boa noite, senhor Tempo,

dê play na Bachiana nº 5, na mulher das Antilhas, nos hinos e nos blues das negras americanas

e faça a sua arte e a sua parte: passe!

E me cure! E me salve!

 

(*) menção à canção “Voz de mulher”, de Sueli Costa e Abel Silva

(**) menção à canção “Oração ao tempo”, de Caetano Veloso

 




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