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3 de agosto de 2017

A curva

Essa curva esperava por ele há anos. Desde o dia em que a desenharam num distante escritório, desde o mesmo momento em que ela tomou forma em metal e tinta. Fincada no lugar que determinaram para ela, cega e muda e estática, a curva perdeu a conta dos veículos que por ela passaram. Na sua cegueira, desfolhava uma margarida a cada motorista que lhe cruzava a frente e a olhava sem nenhuma consideração. Este sim, este não, este sim, este não… O tique-taque de um relógio imaginário era preciso e constante.

Essa curva esperava por ele há anos. E quando afinal chegou o momento do encontro, o motorista passou por ela, distraído. Não lhe deu atenção. Não naquele instante, pelo menos. Pouco mais adiante, sentiu que algo lhe chamava e freou bruscamente no meio da estrada. Tarde demais. O carro derrapou, capotou, saiu da pista e parou justamente ao pé dela, da curva. Não poderia faltar o último abraço entre o homem, preso nos ferros retorcidos do automóvel, e ela, a curva, com seu metal e sua tinta manchados de sangue.

Essa curva esperava por ele há anos.

 




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3 de agosto de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos automóvel, curva, estrada, sangue

               
              
            
                

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