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16 de maio de 2017

A decisão

Estavam à sua espera porque só a ele cabia a decisão. Quando chegou, levaram-no até lá, até a nave espacial. Já o conheciam e agora o olham, expectantes. Há anos ele visitava a nave, há anos ele entrava e saía de lá de olhos baixos e com o coração apertado, há anos ele dizia Continuem como está.

Mal entrou no corredor branco divisou a luz azulada que vinha da janelinha, lá adiante. Abriram-lhe a porta e ele entrou na nave. Apertou os braços em volta do peito, sentiu frio. Viu no centro uma mulher nua sobre uma cama giratória, atada a fios que lhe saíam de todas as partes do corpo e terminavam em máquinas piscantes espalhadas ao redor. Ela estava com os olhos fechados mas, de alguma maneira, intuiu sua presença. Ele pousou os olhou nela, que girava lentamente a poucos metros. Ela tentou mexer um dedo, ele não percebeu. Depois de alguns segundos, tirando forças não se sabe de onde, ela abriu os lábios e sussurrou Filho, me ajude! Ele não conseguiu mover um músculo.

A cama parou de girar, ele se sentou na borda e a olhou. Observou cada centímetro daquele rosto. Sentiu a tentação de contabilizar as rugas que via, mas desistiu. Não era hora de fazer contas, não agora. Olhou para as mãos imóveis, observou as linhas gastas, as unhas sem brilho, a falta de vida onde tanta vida havia. Demorou minutos infinitos nessa observação. A lágrima pendurada em seu olho caiu sobre os lábios dela, umedecendo a secura da boca vazia de dentes. Ele disse, finalmente Fique tranquila, mãe, agora sei como te ajudar.

Olhou para as máquinas ao redor, olhou para os homens que esperavam e fez sim com a cabeça.

 




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16 de maio de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos decisão, filho, mãe, nave espacial

               
              
            
                

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