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31 de outubro de 2016

A degola

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Tenho por hábito, sempre que saio de casa para depositar o saco de lixo na lixeira, fumar um cigarro às escondidas de minha mulher e de meus dois filhos. Eles não gostam de me ver fumando, o cheiro lhes desagrada e, afinal, eu disse que tinha parado com esse vício. Em pé no lado de fora, protegido pela escuridão, entre uma baforada e outra, penso na vida e vejo pela janela a cena adorável de minha família preparando o jantar — os meninos arrumam a mesa, minha mulher traz da cozinha as travessas de comida quente e percebo que há felicidade ali. Apresso as últimas tragadas para voltar logo ao convívio deles.

Uma noite, há alguns meses, enquanto depositava o lixo e acendia meu cigarro habitual, vi quando minha mulher abriu a gaveta sob a pia e tirou de lá a faca de cortar carne e, num gesto tão natural quanto picar um frango em pedaços, degolou os dois meninos. Primeiro o mais velho: aproximou-se dele por trás e, segurando sua cabeça pelos cabelos, passou a lâmina afiada na garganta desprotegida do garoto. Depois foi a vez do menor, que mal teve tempo de gritar e fugir. Os três estavam na cozinha, eu, do lado de fora da casa; ao nosso redor, um mundo que continuava girando, apesar de tudo, apesar do ar, que parou de circular naquele exato momento, apesar do meu coração, que começou a gritar e a saltar dentro do meu peito. Já era demasiado tarde quando pensei em esboçar alguma reação. Fiquei ali na rua, petrificado, com o cigarro me queimando os dedos, meus olhos fixos na janela de casa e meu cérebro, aos poucos, tentando montar um absurdo quebra-cabeças para entender a cena macabra que tinha acabado de acontecer lá dentro.

Com as mãos trêmulas acendi outro cigarro e vi quando minha mulher, como se tivesse planejado e como se fosse algo tão prosaico quanto embalar os restos de comida para jogar fora, colocou o corpo inerte dos meninos em sacos de lixo e os enfiou na parte baixa dos armários da cozinha. Em seguida limpou as manchas de sangue no chão e tirou o avental; a comida já estava pronta. Sem saber muito o que fazer, aguardei ainda uns minutos antes de voltar à casa.

Ela me recebeu com um sorriso e disse que o jantar estava na mesa. Fiquei parado na frente dela e a olhei fundo nos olhos, implorando, sem palavras, por uma explicação. Ela sustentou meu olhar e nada disse. Serviu a sopa com a delicadeza de sempre e comentou que os preços no supermercado tinham subido de novo. Foi a última vez que jantamos com quatro pratos e quatro talheres sobre a mesa. Não voltamos mais a falar dos meninos, apesar do cheiro podre que infestou nossa cozinha durante meses.

Minha mulher sabe que fumo quando saio para jogar o lixo fora. Nunca me disse ou perguntou nada.

 




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31 de outubro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cigarro, degola, faca, lixo, meninos

              
            
    • Hehe, minha cabeça imagina coisas que até eu fico assustado. Não sei responder. Eu estava reunindo os textos para meu segundo livro, “A mãe e o filho da mãe”, e comecei a imaginar uma família em que a mãe não fosse tão “amorosa” assim. E esse conto nem entrou no livro, mas ficou aqui no blog. Abraço.

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