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23 de setembro de 2014

A dor do mundo

Num lugar muito longe daqui, e num tempo que não é este, havia um mago. Ele construiu uma caixa de finíssimo cristal, delicado e raro, e ali colocou todo o pranto do universo. Durante muitos anos ele viajou pelos mundos conhecidos recolhendo as lágrimas que caíam dos olhos de todos os seres vivos. Fez uma coleção imensa, valiosa, a que deu o nome de “A Dor do Mundo”. Aos poucos, as lágrimas foram desaparecendo dos mundos e dos olhos de todos e foram guardadas na caixa de cristal. Era certamente um tempo feliz, aquele, em que as lágrimas deixaram de existir.

Certa manhã de sol, enquanto o mago cochilava, um duende perverso roubou a caixa de cristal e fugiu com ela para um destino ignorado. Quando acordou e deu pelo sumiço da caixa, o mago amaldiçoou o ladrão desconhecido, lançando sobre ele um terrível feitiço. Nesse exato momento o duende perverso tropeçou numa pedra, bateu a cabeça e morreu. A caixa de cristal caiu e estilhaçou-se, e as lágrimas que estavam ali guardadas sumiram no ar. O mago, quando viu a caixa em pedacinhos, ficou desconsolado, pois tivera um trabalho enorme para colecionar todas aquelas lágrimas. Quando chegou a noite e olhou para o céu, ele as viu suspensas na imensidão: as lágrimas tinham se transformado em estrelas, e como brilhavam! E como eram lindas! Pensou em construir uma nova caixa de cristal e guardar ali as lágrimas-estrelas, mas logo desistiu. Não queria se privar – nem que a humanidade fosse privada – de contemplar aquela beleza toda. Mesmo que para isso todos tivessem que voltar a chorar.




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23 de setembro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Prosa Poética dor, mundo

               
              
            
                

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