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17 de setembro de 2016

A escolha

escolha

Caminha ereta. Seus passos não perdem a elegância de um flamingo, embora esteja andando há dias. Os dois meninos, de cabeças enormes e pernas finas, acompanham como podem o ritmo da mãe; parecem frangos doentes, ciscando inutilmente um terreno estéril, que não fornece alimento algum. Andam os três sobre uma terra rachada e poeirenta. O horizonte continua distante, tão distante quanto no dia em que iniciaram a jornada a pé. O sol permanece no alto, maltratando os olhos, a pele e a esperança.

O menor deles, vencido pelo cansaço, senta-se numa pedra e curva a espinha para a frente, até que seu peito toque o chão. Visto de longe, parece uma fruta jogada fora; de perto, é só um menino cansado, sujo e com a fome estampada nos olhos. A mãe o ajuda a se levantar e o carrega nos braços, como se levasse um punhadinho de folhas secas caídas de uma árvore inexistente naquelas bandas.

Levam já quatro dias andando, e ainda faltam mais quatro para chegarem ao campo de refugiados. O outro menino sabe que não vão aguentar. Resolve interromper a caminhada e põe-se de cócoras, as mãos sobre a cabeça. Não há diferença se visto de perto ou de longe: é um menino que desistiu. A mãe o olha com desalento, avalia que será impossível avançar com os dois no colo. Levanta os olhos para o céu e chora sem lágrimas pela decisão que tem de tomar. Sabe que vai morrer sob o punhal afiado da escolha, mas não se detém. Olha para um, depois para o outro e segue caminhando, puxando pela mão só um de seus pequenos.

 




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    • Obrigado, Junior. Toda escolha pressupõe uma perda. No caso dessa mãe, a escolha pela sobrevivência é mortal, por mais contraditório que isso pareça. Grande abraço.

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