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4 de outubro de 2016

A extinção dos Bocanegra

dino

Eis aqui, para quem quiser saber, a triste história da extinção dos Bocanegra, família que tinha sobrevivido com sucesso aos dinossauros, às pestes em geral, às guerras e à fome.

Aos domingos havia o sagrado almoço na casa da matriarca viúva, ocasião em que se reuniam para compartilhar a comida, as críticas a tudo, os xingamentos distribuídos de maneira indistinta e o tradicional jogo de cartas após o café. À mesa falavam todos ao mesmo tempo e as opiniões acerca de qualquer assunto eram lançadas no ar, caíam sobre a toalha de linho ou sobre os pratos ou alcançavam algum ouvido disponível naquele momento. Isso sempre acontecia de forma aleatória, sem prévio acerto entre os membros da família. Assim, nunca havia atrito entre eles porque não era possível determinar se alguém tinha ofendido intencionalmente o outro. No final da tarde, todos se despediam com beijos e abraços e confirmavam a presença no domingo seguinte.

Isso durou o tempo que devia durar, porque em qualquer família é assim: nada é o que parece ser nem permanece para toda a eternidade. Com os Bocanegra não foi diferente. Nos almoços subsequentes o silêncio que baixava sobre a mesa possibilitava que todos ouvissem o ruído dos talheres se chocando com os pratos — e isso era assustador! As palavras que saíam das bocas deixaram de flutuar sobre a toalha de linho, convertendo-se em flechas certeiras com o nome e o sobrenome do destinatário. As opiniões, antes inofensivas e etéreas, passaram a ter alvo determinado e vinham acompanhadas do olhar fulminante do emissor. Os telefones celulares não tinham descanso e eram usados com destreza, desde a velha matriarca até o primo marxista, como prova irrefutável do que cada um dizia. As mulheres passaram a se estranhar, os homens riam na cara uns dos outros, os jovens e adolescentes trocavam entre si os insultos e impropérios que estavam na moda. O barulho de punhos batendo na mesa tornou-se uma constante durante o almoço de domingo. Nos duelos verbais que se travavam nem um só laço afetivo permaneceu intacto. A estupidez, por fim, fez ninho na mesa dos Bocanegra.

Hoje mal se falam. Quando se encontram por acaso, fingem que não se conhecem. Mudam de calçada. Não frequentam mais o mesmo salão de beleza. Não se cumprimentam nos aniversários. Os almoços de domingo deixaram de existir, assim como deixou de existir a família. Elo frágil de uma apodrecida cadeia de relacionamentos, os Bocanegra sucumbiram à era da falta de delicadeza e desapareceram da superfície da Terra.

 




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