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24 de novembro de 2015

A fila

fila2– Vá pro fim da fila, isso aqui é uma democracia!, grita para mim um homem de terno e gravata quando me vê chegar correndo. Eu não ia furar a fila, mas ele talvez pensasse que sim.

Sem reclamar, dou a volta e me encaminho para o último lugar. Observo as pessoas que já estão lá. Homens e mulheres bem vestidos, de idades variadas. Não há crianças ou adolescentes, apenas adultos com o rosto cansado ou entediado. Muitos levam maletas de executivo nas mãos. Ocupo meu lugar no fim da fila e espero em silêncio. De acordo com meu relógio, faltam três minutos para as oito e as portas do edifício ainda estão fechadas, embora se percebam luz e alguma movimentação lá dentro. Estou com meu melhor terno, não quero que tenham trabalho algum comigo. Assim, quando tudo acabar, já estarei adequadamente vestido.

As portas se abrem e a fila começa a andar. Vários homens uniformizados organizam a entrada das pessoas nos três elevadores em funcionamento. Subimos em silêncio.

No teto do edifício, o primeiro a saltar foi o homem que gritou comigo quando cheguei. Ele não fez nenhum ruído, não emitiu som algum durante o tempo em que esteve no ar, pássaro de terno e gravata que abandonou o ninho. Admirei isso.

Minha vez. Posicionei-me na beirada do edifício e olhei para a frente. Olhei depois para baixo. Hesitei por um segundo até que alguém, mais atrás na fila, gritou, impaciente:

– Como é que é? Está arrependido? Quer voltar?

Saltei.

 




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