Close

9 de dezembro de 2018

A força que nos move (segunda parte)

SUA ESTUPIDEZ

Era um homem estúpido, tão estúpido como nenhum outro, e a estupidez era nele um rasgo de alta distinção, esse algo que o convertia num ser único e singular, sem paralelo entre a multidão. A estupidez, como disse alguém, não era nele um traço de imperfeição, mas uma qualidade exacerbada que o tornava perfeito: perfeitamente estúpido.

 

A APARÊNCIA DAS COISAS

Para parecer mais magro, começou a andar na companhia dos gordos, e se sentiu realizado. Então, para parecer mais inteligente, passou a viver rodeado de idiotas, e se sentiu satisfeito. Mas nem tudo estava bem como ele supunha, já que os gordos o consideravam um idiota e os idiotas o desprezavam por ser gordo. Ele nunca desconfiou de nada.

 

A PRÓXIMA VÍTIMA

Desconectou o telefone

trancou a porta com chave

cerrou as cortinas

ficou nu

meteu-se na cama

e se fez noite na casa (que o relógio marcasse três da tarde era o de menos).

 

Teve um sonho,

e não foi um sonho bom,

mas ele sorriu várias vezes enquanto dormia.

 

Quando despertou, sentia-se tranquilo,

satisfeito.

Preparou café forte,

brincou com o facão de lâmina mais afiada

enquanto recitava uma Ave-Maria

e decidia que esta noite não seria exigente.

Qualquer pessoa poderia ter a honra

de converter-se em sua próxima vítima.

 

NÃO FIQUE QUIETO

Esta noite a fome deu uma trégua. Tinha comido o sanduíche que sua filha fez com sobras e lhe deu aos bocadinhos. Depois dormiu e sonhou. Mergulhou nas nuvens, voou em círculos, fez piruetas ajudado pelo vento. Planou sobre os telhados e a copa das árvores. Executou acrobacias com mergulhos rasantes e se rendeu à maciez da brisa, que lhe ofereceu cama e repouso.

A filha o despertou com uma sacudida no ombro. Vamos, pai, já amanheceu. Eu te levo até o metrô.

Ajeitou-o na cadeira e pôs a manta sobre as pernas sem vida. Colocou nas mãos do pai o cartaz com as palavras escritas com tinta azul. E avisou: Não fique quieto, pai, chame a atenção das pessoas que passam. Faz a sua melhor cara de pena. Vamos ver se hoje o senhor ganha mais dinheiro. O de ontem quase não deu pra nada. No final da tarde eu volto pra te buscar. E deixe o freio da cadeira abaixado.

O pai, que ainda guardava nos olhos o sonho de voar recém-sonhado, esboçou um sorriso e aquiesceu.

 




Tags:, , ,

9 de dezembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos aparências, estupidez, quieto, vítima

               
              
            
                

Deixe um comentário