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7 de dezembro de 2018

A força que nos move

MISÉRIA

O espelho grita, insensível, uma verdade que ninguém merece conhecer. Ela se senta diante dele, gorda e lenta, e só não chora porque não há tempo. Delineia olhos, avermelha bochechas, escova sobrancelhas, besunta de creme o rosto flácido, disfarça rugas, colore lábios, azuleja pálpebras. Um comprimido para a alma, um cigarro enrolado às pressas para a melancolia, um uísque sem gelo para o ânimo. Está pronta para enfrentar a merda de vida que lhe compete. Abre a porta e posta-se na soleira, limpando com o dorso da mão o suor da testa e do pescoço.

Os clientes escasseiam dia a dia, suas esperanças fraquejam e quase pedem a morte. Mas ela segue aí, os olhos como ventilador, de lá pra cá, de cá pra lá, aguardando a chegada de um amor à sua porta. Que venha logo e que pague a ela o preço justo por expor, tão despudoradamente, sua miséria.

 

PROFISSIONAL

— Você é muito bom nisso.

— Que nada, senhora! Sou um profissional, apenas cumpro minha obrigação.

— Sendo assim, digo que você realiza sua obrigação excepcionalmente bem. Deveria ganhar um prêmio pelo desempenho — encerrou a mulher, apagando o cigarro no pesado cinzeiro de cristal.

Ela vestiu-se sem muita pressa e não colocou as roupas íntimas. Pagou o combinado ao rapaz, chamou um táxi e foi para casa, onde a esperava o marido, essa pessoa que carecia por completo de semelhante sentido de profissionalismo.

 

FENÔMENO

Cordélia era linda e sedutora. Lúcio era muito ciumento e a vigiava dia e noite. Disse a ela: “Seus olhos olham para tudo e todos. Não gosto disso”. Então arrancou os olhos dela.

Depois de observá-la bem, Lúcio disse: “Com essas mãos você pode muito bem fazer gestos de convite a qualquer um. Isso não me agrada”. E cortou as mãos dela.

“Quer dizer então que você pode falar com quem quer que seja? Isso não é bom, nem pra mim, nem pra você”. E extirpou a língua dela. Tempos depois, para evitar que ela sorrisse para eventuais admiradores, Lúcio arrancou-lhe todos os dentes. Por último, cortou-lhe as pernas: “Pra ter certeza de que você não vai se afastar de mim”.

Ele então relaxou a vigilância e pôde se dedicar a outros afazeres. “Ela está feia, mas ao menos agora será minha até a morte. Ninguém mais vai se interessar por ela. Estou tranquilo”.

Um dia, ao voltar do trabalho, Lúcio encontrou a casa vazia. Cordélia tinha desaparecido. Soube depois, pelos jornais, que ela fora raptada pelo dono de um circo que passava pela cidade e que adorava exibir fenômenos no picadeiro.

 




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7 de dezembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos fenômeno, miséria, profissional

               
              
            
                

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