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28 de janeiro de 2019

A Grande Mentira

Aquele homem precisava dizer uma mentira. Não uma mentira qualquer, mas uma Grande Mentira. Palpável, elegante, inquestionável e impossível de ser descoberta. Seria o projeto principal de sua vida. Pôs-se a trabalhar de imediato.

Dividiu o trabalho em duas etapas. Dedicou os primeiros dias ao planejamento da Grande Mentira. Gastou horas e dias concentrado em encontrar as palavras e o tom adequados, em justificar os motivos do que ia dizer, em estruturar a ideia da forma mais realista possível.

Na segunda parte, esforçou-se para encontrar os pontos frágeis da mentira e eliminá-los. Antecipou todas as perguntas que pudessem ser feitas e colocar em perigo a credibilidade da história que pretendia contar. Preparou respostas perfeitas para cada uma delas, em consonância com a mentira central. Percebeu, porém, que havia uma brecha: as respostas poderiam dar origem a perguntas inesperadas, incômodas. Gastou, então, mais tempo para identificar todas as perguntas dentro de um espectro de possibilidades e preparou as respostas que, de pronto, deixariam o interlocutor satisfeito. O mentiroso repetiu esse processo até que cada questionamento, por menor que fosse, encontrasse uma verdade como resposta.

Depois de várias semanas de trabalho árduo, o homem decidiu que a Grande Mentira estava terminada. Luzia como um diamante finamente lapidado. Era uma mentira de respeito, bem planejada, bem tramada numa rede de pequenas mentiras que lhe serviam de sustentação e lhe davam aquele verniz de verdade, tão necessário em situações assim. Estava orgulhoso de seu trabalho e confiante de que jamais houve no país uma mentira tão bem preparada como a sua. Quando chegou o dia de pronunciar a Grande Mentira, o homem não titubeou. Seguiu exatamente os passos que tinha previsto e planejado, com a segurança de quem tinha ensaiado muito. Surgiram algumas perguntas e todos acreditaram nas respostas tão minuciosamente apresentadas. O homem alcançou a meta a que se tinha proposto: enganou toda a gente.

O êxito não somente se mediu pela quantidade de pessoas que acreditaram na mentira, mas pelo tempo em que acreditaram nela. Muitos anos se passaram e a mentira seguia firme, nem nenhuma fissura. O homem estava muito satisfeito, seu empreendimento tinha dado muitos frutos.

Chegou o tempo, o homem envelheceu e quis ganhar reconhecimento. Não queria morrer sem que ninguém se inteirasse da qualidade de seu trabalho. Passou a sentir desejo incontrolável de que toda a gente, um dia enganada pela mentira, reconhecesse sua arte, se extasiasse diante da perfeição alcançada. O paradoxo era que, para obter reconhecimento, tinha que destruir sua criação.

Se fosse há alguns anos, rejeitaria de imediato a ideia, mas agora entendia que, se quisesse passar para a posteridade, era o que precisava fazer. Se não matasse a Grande Mentira, ela viveria eternamente, já que, de tão bem urdida, ninguém seria capaz de descobri-la. Se a matasse, porém, ele seria lembrado para todo o sempre como o homem que criou a mentira perfeita. Isso, para ele, era mais sedutor. Resolveu matá-la.

Um dia contou a todos a verdade. Desmontou, peça por peça, a estrutura que se manteve rígida por tantos anos. A mentira, porém, estava tão bem arraigada na mente das pessoas que o homem teve muita dificuldade para convencê-las do contrário. Quando, finalmente, toda a gente aceitou que a história contada no passado não era verdade, reconheceram, de forma unânime, que aquela era a mentira mais bem tramada de todos os tempos. E, como era de se esperar, ninguém mais acreditou numa só palavra que o homem disse dali em diante. Quando morreu, depois de alguns anos, na miséria, ninguém estava a seu lado. Ele fechou os olhos convencido de que tinha construído uma obra relevante em vida. Isso lhe bastou.

 




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28 de janeiro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos mentira, reconhecimento, verdade

               
              
            
                

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