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11 de setembro de 2017

A gravata verde

— Sabe no que estou pensando agora, Eliseu? Que a última palavra sempre foi sua. O tempo inteiro, a vida inteira, todas as vezes, até quando não precisava. Como nas bodas de ouro da comadre Irene e do compadre Estevão. Eu dizia que o melhor presente era uma bandeja, dessas laqueadas de dourado, mas você insistiu no jogo de jantar. E a comadre já não tinha jogo de jantar? Claro que tinha! Mas bandeja não tinha, ela me contou depois. Eu falei “Sabe como é, o Eliseu…”. Pra você, dar a última palavra era uma questã. Claro, não ia deixar seu lugar de homem da casa, aquele que decide, que determina, quem sou eu pra merecer uma oportunidade? Você tinha que ter a última palavra sempre. Trinta anos encerrando qualquer conversa, não importava com quem. A sua era a última voz que se ouvia. Até agora, não é, Eliseu? Até agora. Como a gravata. Eu sempre dizia que era melhor pôr a verde, que contrastava com seus olhos castanhos e você ficava muito bem apessoado. Mas você insistia na vermelha, porque a sua decisão tinha que prevalecer. Agora não adianta mais, Eliseu, porque, querendo ou não, você vai de gravata verde.

Dona Elisa aperta o nó da gravata no pescoço de Eliseu. Olha seu rosto por um instante e acaricia seu cabelo. Fica em silêncio. Toma distância para verificar o restante do traje. Ajeita o colarinho e a lapela do paletó. Lustra os sapatos uma outra vez.

— Está vendo como a verde fica melhor? Você devia se convencer disso. Mas agora a situação mudou, Eliseu, e a última palavra será minha. Quanto esperei por esse momento! Trinta anos, trinta largos e calados anos, saboreando palavras em minha língua, sem poder colocar nenhuma delas pra fora! Eu vou ser a dona da última palavra daqui por diante, esse é o meu momento. Serei eu a protagonista. Você acaba de me converter em viúva e, como viúva dedicada, vou usar roupa escura para contrastar com a palidez do meu rosto. Não vou esconder as olheiras, fruto das noites mal dormidas nessas semanas em que você agonizou. Vou chorar sem descanso, receber os pêsames de todos os amigos e parentes e darei a todos a última palavra: “Pobre Eliseu, vou sentir muito a falta dele!”. Essas serão minhas palavras, Eliseu, eu falarei por último. As últimas palavras serão sempre as minhas. Pela primeira vez na vida a minha voz será a última a ser ouvida.

Faz sinal para os enfermeiros retirarem o corpo e vai para casa se arrumar para o velório.

 




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11 de setembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos gravata, última palavra, verde, viúva

               
              
            
                

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