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9 de outubro de 2018

A História, um pouco de blush nas bochechas e um número tatuado no braço

O Prêmio Nobel de Literatura Alberto Gerber disse que sim, aceitava participar do programa de entrevistas na televisão. Isso era parte da extensa programação que vinha cumprindo há semanas, desde a cerimônia em que, com as mãos trêmulas, recebeu a medalha da Academia Sueca. Asseguraram que a conversa seria curta, não mais do que vinte minutos, para alívio do escritor muito idoso, cuja saúde inspirava cuidados.

A funcionária destacada para recebê-lo o leva para a sala de maquiagem, indica onde deve se sentar e se oferece para guardar sua bengala e seu chapéu. A maquiadora já está lá, a postos. Ela o cumprimenta, olha-o de maneira profissional e avisa que lhe aplicará um pouquinho de base no rosto e tirará o brilho da cabeça pelada e das mãos, porque em televisão uma pele oleosa fica horrível e desvia a atenção do que realmente importa. Vai pôr também um pouquinho de blush nas bochechas, uma aparência de saúde sempre pega bem, o senhor tá muito pálido, está fugindo do sol? Protege com um guardanapo de papel o colarinho engomado da camisa branca do escritor e começa a trabalhar.

— Está confortável, senhor?

— Sim, muito obrigado.

A mulher unta a esponja com uma pasta bege que extrai de um tubo e a aplica com delicadeza sobre as bochechas e a testa do escritor.

— Sobre que assunto o senhor vai falar no programa?

— Perdão?

O Nobel não havia entendido a pergunta. Há tempos sua audição vinha falhando. Se o interlocutor falasse depressa ou não pudesse ver seus lábios, o escritor compreendia muito pouco do que lhe diziam.

— O que o senhor vai falar na entrevista — a maquiadora fala mais devagar e mais alto, ao mesmo tempo em que aponta o teto — olhe para cima, quero esconder essas olheiras, não ficam bem na telinha. Sabe como é, as câmeras digitais, a luz, tudo fica mais visível.

— Qual será o tema da entrevista? — insiste ela.

— Ah, isso. Será sobre um livro que escrevi, eu acho — e sorri, embaraçado.

Agora a maquiadora aponta o chão e pede que ele olhe para baixo; precisa dar um jeito naquelas pálpebras, que quase encobrem os olhos. O escritor não entende o pedido.

— Para o chão, senhor, olhe para o chão — o tom da voz da maquiadora é gentil, mas monocórdio. O escritor conhece música e sabe identificar um som monocórdio. Alberto Gerber já tomou aulas de música, inclusive chegou a tocar violino em algumas ocasiões.

— E sobre que assunto é o livro que o senhor escreveu?

O escritor volta a sorrir. O enredo de Canções para Vestir Noites Mortas, sua última obra, não é fácil de explicar. Se lhe perguntarem isso na entrevista, dirá simplesmente que é uma reflexão sobre o Mal. O Mal, com inicial maiúscula.

— É uma novela, umas memórias de minha vida respondeu.

— Ah, que bom! Então vai ser uma entrevista muito bonita admirou-se a maquiadora. O senhor vai vender bastante livro, esse programa tem muita audiência. Não fale agora e mantenha os lábios relaxados.

Ela molha um bastãozinho cor da pele e o aplica sobre os lábios do escritor.

— Pronto, agora já pode falar. O senhor estava dizendo…

O escritor apenas sorri e faz um gesto com a mão, como quem diz não era nada importante.

— Foi o primeiro livro que o senhor escreveu?

— Não, já escrevi outros mais antes desse.

— É mesmo? Que bom, não? — sua alegria era sincera. E quantos livros mais?

Para não ter que responder, Alberto Gerber finge que não se lembra. Ri sem graça, formando sulcos profundos em volta dos lábios.

— Não se lembra? Isso quer dizer que são muitos. Mais de quatro?

— Sim, alguns mais.

O escritor é autor de trinta e dois livros, entre novelas, romances, poesia e ensaios.

— Uau, mais de quatro! Mas então o senhor é um escritor profissional — a maquiadora para um pouco e o olha de frente — Espere aí, como o senhor se chama?

— Alberto — gagueja o escritor. Gerber.

— Gerber. Gerber. Acho que não ouvi falar. Mas é que eu, para guardar nomes, sou uma negação. Diga os títulos, quem sabe eu… Eu leio muito, sabe? Adoro ler, mas não tenho muito tempo. Leio muito no ônibus quando venho pra cá.

— Isso é muito bom. E o que você costuma ler? — o escritor aproveita a oportunidade para mudar de assunto.

— Ah, eu leio de tudo. Ontem mesmo terminei um que tratava de amadurecimento pessoal, em pdf. Baixei no computador e imprimi. Não me lembro exatamente do título, mas falava como a gente deve se comportar e o que deve fazer para ser feliz e crescer como ser humano. Gostei muito. Será que o senhor já leu esse? Foi escrito por uma mulher, ela até já veio aqui no programa, como é mesmo o nome dela? Não me lembro. É sexóloga. Ela aconselha a eliminar a dependência que temos de ex-maridos ou ex-esposas. Diga o título de um livro seu, que vou baixar no computador.

— Não é necessário, eu envio um exemplar para você, não se preocupe.

— Mas se o senhor nem sabe meu nome ainda! Eu me chamo Maria Beatriz Araújo, todo mundo me chama de Bia. Depois escrevo num papel junto com meu endereço.

— Sim, claro, obrigado.

Bia colore as bochechas do escritor com uma brocha delicada.

— Agora um pouco de blush. Pra mim, o blush é a maior invenção da humanidade. Transforma o rosto da pessoa, basta uma pincelada. Olhe só como o senhor ficou com cara de saúde. Uma beleza! Blush é vida, é alegria! E sobre o que é o livro que vai me enviar?

— É também de memórias. De um tempo em que morei fora do meu país. Num campo fechado. Isso foi há muito tempo.

— Eu gosto principalmente das histórias de ação. Esse seu livro tem ação? Gosto das de amor também. Pronto, o rosto já terminei. Agora vou maquiar um pouquinho as mãos, tirar o brilho da pele. Pode arregaçar um pouco as mangas? Assim não mancho os punhos de sua camisa.

— Ah, sim, claro, claro — o escritor levanta as mangas até os cotovelos. Tem as mãos trêmulas. Bia percebe e o ajuda. Interrompe o gesto, admirada.

— Ah, olha só — fixa os olhos no antebraço direito de Alberto Gerber — o senhor tem uma tatuagem, que moderno! O que é? Simboliza alguma coisa?

— É só um número… — o escritor responde, com um fio de voz.

— Um número. Que original! Eu também tenho uma, pequenininha, no ombro — afasta a alça do sutiã e mostra a ele.

— É muito bonita a sua tatuagem.

— Eu gosto de tatuagens pequenas, assim como a do senhor, que é superelegante, charmosa. Que se perceba mas ao mesmo tempo não se perceba, entende? Uma coisa bem discreta. Adorei essa do senhor. Fez onde? Está perfeita! Eu, se fosse o senhor, faria uma igual no braço esquerdo, pra ficar simétrico. Uma em cada braço, já imaginou?

 




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