Close

4 de maio de 2019

A invasão

Não bastassem o calor insuportável e a falta de ar fresco no ônibus abarrotado, e eu quase inteiramente imobilizada pela multidão de passageiros ao meu redor, ainda tive que aguentar aquela invasão. O sujeito me agarrou a bunda e pôs sua mão suja para trabalhar, sem permissão, em propriedade particular vetada a estranhos. Não foi uma simples distração ou mau jeito. Houve propósito ali. O homem encheu os dedos com as carnes do meu traseiro. Antes que eu começasse a xingar alto e denunciasse o assédio, o sujeito fez o sinal da cruz quando o ônibus passou na frente de uma igreja. O filho da puta ainda é religioso, o hipócrita, pensei.

Procurei me livrar do criminoso e ir mais para o interior do veículo, mas a cada parada novos passageiros subiam e não houve maneira de sair de onde eu estava. O movimento que fiz na tentativa de me afastar só serviu, junto com o sacolejo do ônibus, para que ele metesse sua mão ainda mais fundo no meu traseiro e até me acariciasse. Senti sua respiração na minha nuca. Passamos na frente de outra igreja, mas ele não reparou e só levantou uma das mãos para enxugar o suor da testa. A outra continuou no mesmo lugar, me humilhando e usufruindo do que não lhe pertencia. Eu virei a cabeça para demonstrar o meu incômodo — não pensasse o sujeito que eu estava gostando de seu atrevimento —, mas ele olhou para outro lado, como se não percebesse. Numa rotação de corpo digna de contorcionista profissional, consegui ficar lado a lado com o agressor. Encarei-o. Ele baixou os olhos. Pendurei-me na barra de ferro com a mão esquerda e com a direita agarrei sua bunda com determinação. Ele sentiu o golpe, mas disfarçou e olhou para a frente. Poucas paradas depois muitos passageiros desceram e, aos empurrões, fui forçada a me afastar para o fundo do ônibus. Baixei logo em seguida.

Caminhei devagar pela calçada enquanto conferia o conteúdo da carteira do sujeito. Cartões, documentos e trinta reais. Só trinta reais. Por uma passada de mão daquelas, francamente, achei barato. Quem sabe tenha mais sorte na outra vez? Fiquei com o dinheiro e joguei a carteira no lixo.

 




Tags:, , , ,

4 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos assédio, bunda, criminoso, mão, ônibus

               
              
            
                

Deixe um comentário