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21 de novembro de 2017

A isca

A cada vez que nos encontrávamos em dificuldades financeiras, enviávamos nossa irmã Zenaide ao banco para pedir empréstimo. Com faiscantes olhos verdes, ombros carnudos à mostra, busto proeminente sob o decote e uma cintura de vespa, Zenaide era um tipo irresistível. A expressão de seu rosto, entre sonhadora e voluptuosa, que copiava das atrizes de Hollywood dos anos 40, funcionava como isca certeira e nunca falhava: no dia seguinte o dinheiro estava em nossa conta corrente e assim tocávamos a vida. Em troca do empréstimo que nunca iríamos pagar, nossa irmã concedia aos executivos da agência um passeio à beira do rio com direito a mãos dadas, carícias discretas e permissão para que olhassem por dentro de sua blusa de organdi. Se, atrevidos, tentassem avançar o sinal — por exemplo, apertar o bico de seus seios —, Zenaide reagia e os deixava plantados junto à erva rasteira que existia nas margens do rio.

Naqueles locais próximos à água a terra é úmida e os homens lá plantados não tinham dificuldade nenhuma em criar raízes. E assim ficavam eles, feito árvores, merecedores da punição por quererem se aproveitar de uma mocinha ingênua e decente como nossa irmã Zenaide. Como árvores, porém, eram inúteis. Por mais que balançássemos o tronco, não caía nada mais que uma chuva de caspa, balancetes empresariais e lista de inadimplentes. Foi mamãe quem teve a ideia de plantá-los de cabeça para baixo. Os cabelos e os dedos também se enraizaram rapidamente e, no lugar da frondosa copa, temos agora caríssimos pares de sapatos italianos que colhemos todas as semanas e aos domingos vendemos na feira de antiguidades da praça central.

(foto de Ben Zank)

 




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21 de novembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos árvore, empréstimo, irmã, isca, sapatos

               
              
            
                

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