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29 de julho de 2019

A linha invisível

E se estavam ali, frente a frente, a mulher e o policial vigilante da fronteira, e não se abraçavam, era porque entre eles havia uma linha invisível que os apartava e dividia. Eram iguais, pobres os dois, cumprindo ordens. Ele, da autoridade à qual obedecia, que tinha dito Não entrarão! Ela, do coração de mãe, que ordenava que fugisse da miséria e da fome e procurasse a paz e o futuro dos filhos. Tão iguais e tão diferentes, tão juntos e tão separados, que a linha invisível ganhou altura e solidez de muro intransponível. Só assim esse diálogo pôde existir: para dar materialidade à peleja da civilização contra a barbárie, da sanidade contra a loucura, da calmaria contra a turbulência, da sensatez contra seu avesso:

— Mulher, qual é o seu nome?

— Não sei.

— De onde você é? Veio de onde?

— Não sei.

— Há quanto tempo está caminhando?

— Não sei.

— Há quantos dias não come?

— Não sei.

— Por que mordeu o meu braço?

— Não sei.

— Sabe que não vou lhe fazer mal nenhum, não sabe?

— Não sei.

— Você está proibida de cruzar esta linha. Sabe disso?

— Não sei.

— Entende que estou cumprindo ordens?

— Não sei.

— Sua cidade ainda existe?

— Não sei.

— Essas crianças são seus filhos?

— Sim.

 




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