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17 de maio de 2016

A maçã

maçãA maçã, diferentemente da banana, é uma fruta que demora para ficar com aspecto feio: pode-se esquecer uma maçã numa fruteira por uma semana, sem que ninguém se preocupe com ela e, ainda assim, ela se mostrará vermelha e brilhante como se tivesse sido colhida naquele dia. Com a banana isso não acontece: assim que atinge o ponto, se não for consumida, logo se enche de manchas pretas e em algumas horas se transforma numa pasta intragável. Seu destino é o lixo. A carne da maçã, ao contrário, mantém-se apetitosa e se presta, por dias, à mordida de dentes vampirescos e afiados.

Abílio trabalhava numa fábrica de porcelanas. Operava uma máquina que dava forma a pratos, copos, vasos, carinhas de boneca, objetos de decoração. Eram dele as mãos que retiravam do equipamento os produtos que, dali, iriam para o setor de embalagens; mãos que tinham que ser delicadas e firmes ao mesmo tempo. Eram também dele os olhos que conferiam a qualidade da mercadoria: toda rachadura, todo trincado, toda greta, toda fenda era motivo de recusa pelo homem que tinha mãos e olhos conhecedores de seu ofício. Produto com defeito, produto refeito, era seu lema.

É bem possível que, algumas vezes, bichos indesejados perfurem a casca da maçã e lá dentro, escondidos na escuridão da fruta, façam sua morada. É preciso, portanto, cuidado antes de meter os dentes na polpa sedutora: olhar se há rastros de vermes entre as fibras da massa comestível — se houver vermes, haverá rastros. A solução, então, é cortar fora a parte que não presta mais e aproveitar a não contaminada. É por isso que, ainda que brilhantes e convidativas, também as maçãs, menos que as bananas, é certo, não estão a salvo de apodrecerem na lata de lixo.

Trabalhando na fábrica desde que era aprendiz, Abílio não sabia fazer outra coisa e era, mais de trinta anos depois, o melhor em sua função. Todos os dias passavam por suas mãos criteriosas os objetos da mais fina porcelana, prontas para cumprirem seu destino certamente nobre, certamente elevado. Abílio era a maçã, que não perdia o brilho após anos de dedicação ao ofício no qual era especialista. Aconteceu que um dia uma parte da maçã apodreceu e teve que ser extirpada: ao tentar consertar uma engrenagem da máquina que cuspia as porcelanas, Abílio não foi ágil o suficiente e viu os músculos e os ossos de um de seus braços serem moídos pelos dentes pontiagudos do equipamento.

Quando acordou na cama do hospital, Abílio sentiu que nascia de novo. Estava sem um membro, era uma maçã da qual tiveram que cortar a parte contaminada para que o restante fosse aproveitado, mas, ainda assim, um novo nascimento. Abriu os olhos e viu Rosália sentada ao lado da cama. Ela não sorriu. De que serve você sem um braço, Abílio?, disse, impaciente. Vai fazer o quê, pode-se saber? Viver de aposentadoria? Vai ser um inútil na vida? Um serve-pra-nada, um estorvo?

Abílio ficou em silêncio. Agora você está podre, Abílio, como uma banana que passou do ponto e tem que ir pro lixo. Não presta mais. E saiu do quarto, sem se incomodar com a lágrima que ameaçava descer pelo rosto do marido. Abílio virou a cabeça e viu, na mesinha de cabeceira, a bandeja com seu jantar. De sobremesa, uma fruta: maçã. Apertou os olhos e notou um quase imperceptível furinho na casca. Pensou que lá dentro, na carne, certamente haveria um verme fazendo morada.

 




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17 de maio de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos banana, carne, fruta, maçã, verme

               
              
            
                

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