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30 de novembro de 2015

A mãe e o filho da mãe: doçura, fel e uma folha ao vento

folhas_ao_vento1Doçura

Isabelzinha? Sou eu, querida, sua prima Maria. Sim, eu liguei justamente por isso. Nasceu, sim. Ah, que coisa mais bonitinha! Gorduchinho, corado, quatro quilos, uma beleza de criança, só vendo, Isabel! O Zé e eu estamos muito felizes. Não conseguimos lugar em nenhuma pousada aqui em Belém, estava tudo lotado por causa do censo. Então o Zé improvisou um bercinho com umas madeiras que ele encontrou pela rua. Felizmente eu tinha trazido umas roupinhas, você sabe como é, prima, uma mulher grávida tem que estar prevenida sempre.

Ah, teve muita confusão, sim. Primeiro um grupo barulhento de meninos e meninas chegou fazendo cantoria e querendo ver o bebê, mas o Zé não permitiu. Você acha que tem cabimento? Eu aqui, ainda toda dilatada, com um recém-nascido nos braços, e essa turma dançando e cantando feito louca? Não, o Zé mandou parar na hora, que falta de respeito, meu Deus! Bom, eles não foram embora, mas não incomodaram muito, ficaram mais embaixo, na entrada do beco, cantando aleluias e louvações. E depois chegaram três ricaços, vindos sabe Deus de onde, e queriam porque queriam ver e acariciar o meu filho. O Zé também não deixou. Os três tinham trazido presentes, mas o Zé pediu que deixassem tudo aqui e voltassem outro dia para ver o bebê, uma mãe que acabou de parir não tem direito a um pouco de descanso? Por favor… Eles foram embora e prometeram voltar daqui a dez dias. Até lá eu já vou estar em pé de novo.

Olhe só que cabeça a minha, eu quase ia me esquecendo de lhe contar: no instante em que o menino saiu da minha barriga e abriu os olhos, justinho, justinho naquele momento passou pelo céu uma estrela brilhante como eu nunca vi, uma estrela majestosa, grande, branca, com uma luz tão intensa que iluminou a rua inteira. Você precisava ver que beleza. Um fenômeno, um presente de boas-vindas para o meu pequeno. Bom, agora tenho que ir, o menino precisa do meu peito, é a criança mais gulosa que eu já vi, não sei a quem puxou. Um abraço, prima, e dê lembranças a todos daí.

 

Fel

– Desde que apareceu na Bíblia, ele está insuportável. Ninguém aguenta mais.

– Nem me fale. Está endeusado.

– E você ouviu falar que outro dia ele ressuscitou um homem? E foi diante de todo mundo, menina!

– Ah, isso é puro exibicionismo.

– E do casamento, você se lembra?

– E eu ia me esquecer? Aquilo foi uma desfaçatez. Transformar toda a água em vinho. O que ele estava pensando? Que ousadia!

– Acho que estava todo mundo cego naquele dia. Onde já se viu? E as crianças, iam beber o quê? Azeite? Não sobrou nem um tantinho assim de água.

– E na outra noite, o que ele dizia mesmo?

– Tomai e bebei tudo, alguma coisa assim, não me lembro direito.

– Se isso não é desejo de ser superstar, eu não sei o que é. Um escândalo!

– Eu acho que Deus deve estar olhando tudo isso.

– Claro que está, não resta dúvida.

– Eu fico com muita pena da Maria. Com um filho assim…

– Ih, comadre, nem me fale! Ela já garantiu o lugar dela no céu.

– A culpa toda é daqueles evangelistas, que só sabem fazer algazarra pelas ruas. Tudo para chamar a atenção.

– Também acho. Principalmente o João. Esse é o pior deles. Chegou a ler o Apocalipse?

– Eu não, que não vou perder meu tempo com o delírio dos outros.

– Eu também não, mas a vizinha da rua de baixo leu e me contou. Tem uns objetos que voam, depois uns anjos aparecem do nada tocando trombeta, é um troço alucinante, só vendo.

– Se você quer saber, eu acho que o povo tem a sua parcela de culpa, ah, isso tem!

– Eu também acho.

– As pessoas geralmente gostam de umas coisas assim, picantes, sensacionalistas. Tem gente que adora um deboche.

– E hoje tem a crucificação. Você vai assistir?

– Não sei ainda, talvez eu vá. A que horas vai ser?

– Sei lá, acho que é depois do almoço, lá pelas três da tarde. Ei, espere aí, reparou que a rua está deserta? Onde o povo se meteu?

Carai, já deve ter começado. Anda, senão vamos chegar atrasadas.

 

Uma folha ao vento

No domingo, quando a calmaria já tinha descido sobre toda a cidade, reuniram-se em volta da mesa com o semblante apaziguado e tomaram chá, conversando sobre a vida e os últimos acontecimentos. A manhã ia clara e quente. Lá fora a brisa bulia com as folhas e havia um silêncio reconfortante ao redor. Por isso, falar exigia cuidado. Sentado no centro da mesa, ele olhava para todos com infinita bondade.

– …e, para terminar, andaram dizendo por aí que subi ao céu flutuando como um pássaro sem asas. Foi assim que disseram. Mas agora está tudo terminado e posso seguir o meu rumo. Ainda há muita vida para viver.

Em seguida levantou-se e se despediu de todos. Deu um abraço apertado e um beijo no rosto de sua mãe. O beijo em Maria Madalena foi na boca. Acenou a todos os demais e foi andando em direção ao deserto.

– E o que vai ser de ti? – perguntou João, com angústia na voz.

– Eu? Como qualquer pessoa deste mundo: meu chapéu e meu cobertor serão meu lar.

E desapareceu no horizonte.

 




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