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14 de julho de 2016

A mão de Deus

joão lira— E então Deus não é grande?, João Lira perguntava sempre, e ele mesmo respondia: É maravilhoso! Aos domingos, para ver a tarde morrer, a família se juntava no lado de fora do casebre e conversava. João Lira era o que mais falava, os outros ouviam e concordavam com a cabeça.

— Quando nós trabalhava pros rico, lá na outra fazenda, ele sempre tava com a gente. E toda vez era a mesma coisa: se alguma coisa sumia, o dono mandava chamar o padre da cidade pra falar com todo mundo, e o padre vinha e conversava com a gente naquele jeito manso dele, dizendo que roubar era coisa do demônio e meio caminho andado na direção do inferno. Ele sabia falar, o padre. Como daquela vez que sumiram os dois sacos de feijão, ceis lembram? Eu lembro. O padre veio, conversou com cada um, fez o confessionário e foi embora. De noite, Deus apontou quem era o ladrão e aí foi só chamar a polícia pra resolver o caso. Olha só como Deus é grande, minha gente! Fez o ladrãozinho forte o suficiente pra aguentar a surra de corda molhada, e no dia seguinte tava ele lá, trabalhando debaixo do sol, como se nada.

João Lira faz uma pausa e olha para o céu. Aproveita para molhar a garganta com a cachaça que ele mesmo fabricava. Continua:

— E cuide mais: Deus fazia de um tudo pra que a gente não caísse doente e ficasse impossibilitado de trabalhar. Lembram da chuva do mês de agosto? Pois então, a gente ficava no campo o dia todo, debaixo da água, e todo mundo voltava sãozinho pra casa, como se nada. Tá certo que um ou outro, mais fraquinho, pegava pneumonia, que isso é mais que normal. E se o sujeito ficava doente, Deus dava um jeito que não sofresse muito e logo, logo encaminhava ele pro céu, que é pra descansar sem muita dor. É ou não é muita grandeza? É grandeza demais, gente!

A garrafa de cachaça passa de mão em mão. A noite desce e um só sabe que o outro está ali pelo reflexo das estrelas no branco dos olhos. E pela voz de João Lira:

— Igual quando a Francelina e a Dulcimar botaram os meninos no mundo, depois que os filhos do patrão fizeram o serviço deles. Os meninos não nasceram cheios de saúde? E não tão aí, crescendo como capim e logo vão ajudar a gente na colheita? Então, gente, é tudo obra da bondade de Deus, eu não tô falando? Olha só, mais um exemplo: eu tava outro dia procurando pela estrada uma galinha preta e umas ervas de cheiro pra fazer um despacho, sabe aquela vontade que de vez em quando a gente tem de deixar de ser pobre? Pois então, Deus me tirou desse mau caminho e desse mau pensamento, e oceis sabem o que encontrei? A Zilda, perdida por aí, decerto os pais dela largaram ela na estrada, que tem muito pai desnaturado nesse mundo. Então, encontrei a Zilda perdidinha, menina ainda, e é claro que eu trouxe ela pra casa. Agora ela tá bem melhor, tem trabalho lá perto do mercado, onde passa bastante freguês e ela fica o dia inteiro ocupada. Agora oceis me digam: foi ou não foi a mão de Deus que botou a Zilda no meu caminho?

 




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