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7 de maio de 2020

A memória é um jogo que chega ao fim

O nome do autor é o primeiro que se esfuma,

seguido docemente pelo título, a trama,

o desfecho impactante e, afinal, o livro inteiro.

 

O livro inteiro se converte, de golpe,

naquele que nunca foi lido,

naquele do qual nunca se ouviu falar,

como se, uma a uma, as lembranças da leitura,

tão acalentadas durante algum tempo,

resolvessem se abrigar num escaninho obscuro do cérebro,

aquele lugar distante

que mais parece uma ilha de golfinhos intocada no tempo e na paisagem.

 

Não é de se estranhar, portanto, que alguém se levante no meio da noite

para buscar a data de nascimento de um mártir famoso num livro de História.

 

Não é de se estranhar, portanto, que a lua que se vê de relance pela janela pareça,

mais e mais vezes,

a figura que escapou de um poema de amor

que antes se sabia de cor e salteado.

 

A memória é um jogo,

uma partida muito disputada.

A partida chega ao fim. O que não acaba

— nunca —

é a derrota.

 




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