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8 de abril de 2019

A memória

“Escreva-me. Me dê forma, nome, espírito, rosto. Escreva-me, assinale o norte das palavras, sublinhe a direção do significado delas, faça-me parte da história, não me esqueça. Escreva-me, imploro. Conte como eu era no tempo das cerejas maduras, das rodas de violão, dos passeios na praia. Desenhe minha cara, que me conheçam e me reconheçam.

Você queria ser testemunha dos meus sonhos. Me via andando nas ruas, às vezes correndo, fugindo dos gases lacrimogêneos e da água suja da polícia. Me ouvia gritando palavras de ordem. Eu gritava pela memória. Disseram que eu merecia morrer. E me mataram.

Amarraram meus pés e mãos com arame e, desde um avião, me lançaram no Atlântico, não na beira onde dávamos passeio, mas no alto mar. Levei meu nome, minha forma, meu espírito, meu rosto para o fundo da água. Sobrou minha memória.

Não deixe que ela também morra: escreva-me.”

 




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8 de abril de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Prosa Poética mar, memória

              
            
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