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7 de julho de 2019

A menina eterna, Beatriz

I

Nunca me disse qual era o seu nome, só que não gostava dele e que eu poderia chamá-la como quisesse. Apareceu para mim num dia gelado de inverno, no canto do espelho. É uma menina de eternos nove anos, que usa um vestido branco e esvoaçante, prende os cabelos com fita de cetim e quase nunca ri, apenas sorri tristemente. Tem memória privilegiada e em sua cabeça estão acumulados recordações de toda a vida que já viveu e que não quis continuar. Disse-me uma vez que preferiu voltar a ser menina e não chegar a conhecer nada mais deste mundo.

II

Decidi chamá-la Beatriz, o nome daquela que faz os outros felizes, ainda que, na realidade, a menina eterna não costume estar alegre quando conversa comigo nem me traga alguma alegria, antes angústia e melancolia. A alegria, talvez, seja a única lembrança que não permaneceu em seu coração e em seus olhos. Beatriz é adorável e sincera, não faz barulho quando aparece e fica quase sempre naquele canto do espelho, encolhida dentro de seu vestido branco e leve.

III

Nossas conversas atravessam madrugadas. Ela guarda nas mãos a sabedoria de um ancião e a experiência de toda uma vida. Quando se lembra do que já viveu, seus grandes olhos claros ganham sombra e pesar, mas ela nunca me deixa ver suas lágrimas. Sei que chorou porque, quando o dia amanhece, a pele de seu rosto está mais seca e nela há sulcos, vincos, trilhas, caminhos que só as lágrimas fazem no rosto humano. As faces de Beatriz demoram dias para recuperar a umidade e o frescor de antes.

IV

Ontem à noite a encontrei mais triste, parecia também menor que antes. Estava suja. Disse-me que seu pai tinha acabado de morrer e que se arrependia muito de nunca ter conversado a fundo com ele, nem quando soube da doença terrível que o devoraria, como de fato aconteceu. Enquanto falava, Beatriz segurava na voz e nos olhos as lágrimas que lá estavam. Não deixou que corressem na minha frente.

V

O que Beatriz contava para mim era um pedaço da minha própria história. Nunca conheci o meu pai nem privei de sua intimidade. Ele era o pai, eu, o filho, ambos rigorosos no desempenho de nosso papel na vida. O silêncio entre nós dava o tom. Estávamos há muito ausentes um do outro. Quando ele adoeceu, tive medo e me distanciei. E ele se foi sem que eu estivesse perto dele.

VI

Isso aconteceu ontem, no mesmo dia em que Beatriz me contou que o seu pai também tinha morrido. Silenciosa e calma como sempre, ela seca a pele de seu rosto com as lágrimas que saem dos meus olhos. Amanhã os dois estaremos com o rosto marcado por sulcos, vincos e trilhas.

VII

Eu envelheci. Beatriz estancou.

 




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7 de julho de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Beatriz

               
              
            
                

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