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7 de janeiro de 2019

A mentira de Ulisses

Os marinheiros, tristes e cansados, se aglomeram na praça depois da correria, em vão, pelas ruas próximas ao porto. Onde estão elas?, se perguntam, ofegantes. Onde estão as mulheres que Ulisses prometeu que aqui estariam à nossa espera? Era mentira? Depois de anos de travessia e penúria, choro e dor, estavam inconformados. E elas, as velhas com quem tropeçaram nas esquinas, nos portais de prédios decadentes, sentadas nas entradas das casas que há muito deixaram de sê-lo, tiram por um instante os olhos das bonecas de madeira que carregam nos braços. Deixam, por um só minuto, de acariciá-las, de pentear seus cabelos de alga, de cantar para que finalmente durmam, e fixam o olhar sem viço nesses homens esquálidos, famintos, de pele salgada e escura, que perambulam, tontos, pelos becos e sarjetas inundadas de desencanto.

Esses homens lhes recordam os outros que, décadas atrás, chegaram à ilha das mulheres dizendo e garantindo que eram os reis de Ítaca, o Paraíso terrestre. Somos reis, somos senhores, somos donos daquele pedaço de mundo onde não há nada mais que abundância e prazer, diziam, a bocarra bem aberta e salivando.

Ítaca, ah, Ítaca, que distante estás e que perto te sinto! Quantos mares me separam de ti, ó, mãe de todos nós?, cantavam os homens naquele então, a voz embargada de saudade. Estes, os de agora, não têm saudade, têm urgência. Estão impacientes. E que inferno o ar se torna quando a impaciência joga com a necessidade!

As velhas volteiam os olhos pelo entorno e suspiram, nostálgicas, mastigando a gengiva vazia de dentes. Lamentam a dor de saber que perdeu-se uma geração inteira. Recomeçam a cantar para a boneca que carregam no colo e se conformam.

 




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