Close

28 de junho de 2020

A mercadoria

Assim que anoiteceu, Frida, a supervisora, ordenou que as funcionárias fossem embora antes do toque de recolher. Ela mesma fechou as portas da loja. Passou os olhos pelas estantes, conferindo o estoque de produtos. Admirou-se com a quantidade de chapéus à venda e que quase já não cabiam nas prateleiras. E as saias, as calças compridas, as blusas, os sapatos, tanta coisa! E os vestidos, quantos! Parou diante de um, de tecido leve, mangas compridas, estampado com flores do campo e com decote em V. Lembrou-se de imediato: esse vestido tão bonito era de sua vizinha, ela o usava na última vez em que foi vista, passeando pelo bairro. Frida aproximou o vestido do corpo e se olhou no espelho. Gostou do que viu. Decidiu levá-lo para casa para usá-lo em alguma festa. “Se subir um pouco a barra e descosturar a estrela amarela na altura do busto, ficará perfeito em mim, bem melhor do que no corpo da outra”, pensou. “Bom, ela não vai mais precisar disso mesmo.”

Tocam a campainha e Frida olha pela janelinha. Gritam lá da rua que vieram entregar mais um carregamento de roupas procedente de Auschwitz. Dona Frida poderia fazer o favor de abrir a porta para receber a mercadoria?

 




Tags:, , , , ,
               
              
            
                

Deixe um comentário