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29 de abril de 2020

À mesa os iguais

A mesa está posta,

os comensais se reúnem,

consultam o relógio,

pacientes, impacientes. Estão com fome.

 

A senhora da casa observa o arranjo,

baixelas sem manjar,

brancas porcelanas intocadas,

copos vazios,

talheres polidos,

o linho ainda imaculado da toalha,

os comensais ao redor,

pacientes, impacientes,

 

e pede que encham os copos,

fino vinho tinto, vermelho e roxo a um só tempo,

que o vermelho e o roxo estão presentes

nos lábios, na língua e nos olhos dos que têm fome: conformidades.

 

Vermelho e roxo estão também no rosto da senhora,

que se senta muito solene

e estende o guardanapo sobre as pernas.

Os pacientes, impacientes fazem o mesmo,

nunca antes, só depois.

 

Todos os estômagos e intestinos com as bocas abertas

viradas para cima,

as lombrigas pacientes, impacientes,

aguardam o alimento que não deve tardar.

O sexo de todos, úmido e empinado sob as roupas, é espectador privilegiado.

 

Um sinal com a mão acinzentada e cadavérica da dona

— que sirvam já as iguarias preparadas para a ceia:

suculentos nacos temperados e algo crus dos pássaros abatidos naquele dia,

regados a molho de silêncio. Comem.

 




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