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27 de abril de 2020

A mulher misteriosa

Marilda era uma mulher indecifrável, diziam uns. Enigmática, outros. Voluntariosa e infernal, grande parte. Fascinante, a maioria. Adjetivos, todos apropriados, para a mulher com quem eu traía a minha e que gostava de se fazer misteriosa. Dissimulava sempre, inclusive na minha presença, o homem com quem ela traía seu marido. Poucas vezes olhava nos olhos, sua mirada estava sempre além, distante. Aparecia do nada, como por casualidade, num bar, na fila do cinema, numa palestra sobre o meio ambiente, num show de música. Com um nome diferente, com uma vida inventada para cada ocasião. Outro penteado, distinto modo de se vestir, outra cor de batom. Antes de cada aparição, meticulosamente preparada, assumia ares de ausência, talvez pensando no papel que desempenharia dali a algumas horas, como se fosse uma atriz profissional. Se ia interpretar uma enfermeira, rapidamente aprendia sobre vacinas, vírus e prazos de quarentena. Pintora, adquiria o conhecimento necessário sobre as belas artes. Ensaiava frases, sotaques, pronúncias, gestos, discursos. Às vezes eu acompanhava esse teatro. Não comentava, só assistia. Eu era apenas Cláudio, o amante: alguém desprovido de qualquer importância, o sujeito subserviente e fraco que lhe dava relevo e majestade.

Nas reuniões de amigos era ela quem se aproximava, felina, sempre de surpresa, provocando admiração e olhares. Eu era eu, Alex, um contador com uma vida prosaica e sem charme, e ela, a mulher indecifrável, enigmática, voluntariosa, fascinante: Isabela. Sempre terminávamos esses encontros estendidos na cama de um motel ou enrolados no banco traseiro do meu carro. Uma vez nos despedimos deitados na areia da praia, vendo o sol raiar. Hoje nos encontramos na mesa de um café.

Contou-me, as mãos quietas em volta da xícara e o olhar perdido mirando acima da minha cabeça, que ia deixar o marido. Enquadrou meus olhos nos seus como se pedisse aprovação para o que pretendia fazer. Eu, com meu melhor sotaque francês, lhe disse que meu nome era Jean Pierre, escritor de novelas de amor, e que me encantaria conhecê-la melhor.

 




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  1. Ser a amante é se alimentar de saborosas migalhas!! É um martírio autoimposto!! É um alívio não ter de ser a “oficial” nas chatices do dia a dia!!

  2. Ser a amante é se alimentar de saborosas migalhas!! É um martírio autoimposto!! É um alívio não ter de ser a “oficial” nas chatices do dia a dia!!

    • Oi, Ana, obrigado de novo pela visita e comentário. É sempre uma alegria ver você por aqui. É verdade, ser “a outra” ou “o outro” tem suas vantagens. As relações afetuosas permeadas pelas aparências, máscaras à frente. Um jogo. Jogar é questão de foro íntimo. Grande abraço.

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