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11 de julho de 2019

A mulher sem nome

Ninguém se lembra do meu nome, ficarão assombrados quando souberem que tenho um. Para toda a gente sou apenas tua mulher, tua esposa, a que desobedeceu, a rebelde. A ninguém importa se naquela noite abandonei minha casa, minha cidade, meus pais, e te segui — não cabe à esposa seguir seu marido? Corri ao lado teu. Mas, oh, pecado mortal!, olhei para trás. Acaso tu não escutaste os gritos, não viste o fogo consumindo tudo, as labaredas lambendo nossa casa e o corpo de meus irmãos? Nada disso te comoveu? Sei que não. Comigo tampouco te importaste. Tu correste, cego pelo medo. Medo, não obediência. Medo. E por medo ficaste com nossas filhas naquelas cavernas, marginal, bêbado, fazendo filhos nelas, fazendo nelas netos. Nossas filhas, presta atenção. As mesmas filhas que não hesitaste em oferecer aos sodomitas como mimos para garantir tua sobrevivência. Enquanto eu continuo aqui, eterna estátua de sal, sem nome, sem história ou alguém que se lembre de mim, diariamente espantada e sem entender as virtudes do medo. Do teu medo, do medo de toda essa gente.

 




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11 de julho de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos filhas, mulher, sal

               
              
            
                

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