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10 de janeiro de 2020

A não-casa

Houve um dia em minha vida

em que comecei a perder.

Fui perdendo, perdendo.

Isso aconteceu de forma imperceptível,

como ocorre com a ação dos cupins na madeira.

Restou a casa.

As perdas edificaram

sobre argamassas de adeus

a casa onde ora habito.

 

É uma não-casa.

 

É uma casa simples,

de nostalgia pintada,

mobiliada com recordações

que o tempo carcome lentamente.

Ali há horas mortas, outras mornas,

noites em branco e preto,

jardins com fantasmas,

um poço de desejos

e feridas, muitas, em cada janela.

 

Às vezes, se o tempo é bom,

saio para fora e passeio um pouco

pela redondeza,

mas volto logo, cheio de ânsia,

e me interno

atrás da cômoda,

ao lado da penteadeira,

nesta casa.

 

É uma não-casa.

 

Porque é ela quem me acolhe, compassiva,

sob os sóis e as luas

que pairam sobre o teto alaranjado,

mas ilumina outras vidas

e se esquece da minha.

 




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10 de janeiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia não-casa

               
              
            
                

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