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21 de abril de 2020

A outra teta da Pietá

Uma teta é uma teta.

Uma coisa é a teta que amamenta,

outra, a teta ao sol.

A teta que amamenta pode estar ao ar livre,

a que goza o calor, não.

Assim dizem.

 

A menina de dezesseis anos não sabe disso.

Alimenta o filho e se bronzeia,

a grama do parque lembra a areia da praia,

quando não tinha ninguém para alimentar,

só gozar o sol.

Liberta a outra teta só para sentir o calor,

uma Pietá adolescente.

 

Uma teta que não dá leite

chama a atenção do policial.

Diz que uma teta não pode ficar ao sol

se não estiver alimentando.

Teta de fora, sem boca sugando o mamilo,

não pode.

 

Uma teta que dá alimento é uma teta boa,

tem significado e propósito.

A teta má — vadia —

tem mamilo elétrico,

tem forma, relevo

que só desperta sensações em quem a vê:

isso não é permitido.

 

A boca do bebê tem direito a uma só teta

de cada vez.

A outra deve se comportar

quieta, no escuro da blusa,

longe dos olhares e dos pensamentos.

 

A Pietá não entende

por que deve esconder a fonte da primeira comida

de seu filho,

se ele já venceu a cruz do nascimento

e chora de fome,

pede o alimento que só ela tem para dar.

Ela e uma teta que jorra leite.

Ela e a outra teta, que só quer se bronzear.

 

Mas o sol é proibido

para a teta que não alimenta

o filho da Pietá.

 




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