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28 de junho de 2017

A palavra ausente

Nós, os Valente, nunca fomos muito de falar, nem entre nós, nem com os outros. Nos conhecemos apenas de vista e só nos vemos quando coincidimos na fila do banheiro ou ao passarmos pelo corredor que leva aos quartos de cada um. Minha mãe, a mais calada de todas, costuma levantar a sobrancelha direita e nos olhar enquanto coloca comida em nosso prato, para confirmar a quantidade suficiente de alimento. Há uns dias apareceu em casa um senhor, sentou-se à mesa e tampouco disse algo. Limitou-se a olhar o prato enquanto minha mãe o servia e fez sinal indicando que já bastava. Parece simpático, veste-se com elegância simples e suas unhas mostram que ele visita a manicure com frequência. Minhas irmãs, quase sem querer, ficam ruborizadas quando cruzam os olhos com o olhar dele. Desde então ele aparece para almoçar e jantar conosco, já marcou de maneira informal seu lugar no sofá e trouxe as próprias pantufas e a manta para colocar sobre as pernas nas noites frias. Hoje, quando ele foi para o quarto com minha mãe, meu pai franziu o cenho e pareceu não ter gostado muito. Mas, como de costume, não disse nada.

 




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28 de junho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos falar, palavra

               
              
            
                

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