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25 de outubro de 2017

A palavra nova

E de repente invento uma palavra nova,

e a repito,

e percebo o quanto soa bem:

frematóbulo.

Soa tão bem que a pronuncio num sussurro,

depois cantando,

também separando as sílabas,

em seguida letra a letra, com deleite,

igual aos meninos na escola,

recitando o nome dos afluentes do Amazonas.

 

Que delícia é inventar palavras,

pelo simples prazer de escutar o seu som!

Elas dão voltas no meu cérebro,

umas retumbam grandiosas, gordas como elefantes,

outras soam tímidas, gatos silenciosos,

enroladas sobre si mesmas.

 

Logo percebo que tenho que criar também um significado,

um sentido para essa nova palavra,

uma razão de ser para sua existência.

Tenho que coser um conceito,

inventar uma qualidade

que a converta numa palavra autêntica,

digna de figurar nos dicionários e enciclopédias.

Mas não — ela perderia seu perfume de recém-nascida.

 

Porque as palavras, às vezes,

como os amantes, são mais bonitas quando nuas e vazias,

convertidas em puro desejo e assim,

completas em sua sonoridade infinita,

não necessitam de mais nada para existirem.

 

Sim, só quero beijar essa palavra nova,

brincar com ela,

acariciar o seu som com minha língua e garganta

e soltá-la no ar numa noite de verão,

deixar que suba até as estrelas e, de lá,

ela mesma grite seu nome e me devolva

o sopro ingrávido da criação livre e sem sentido algum.

 




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25 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia palavra nova, som, sonoridade

               
              
            
                

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